Publicado em 20/1/2025, às 20h10

VOCÊ NÃO COLHE (SÓ) O QUE PLANTA
Por Thaise Cotrim

Sempre ouvi dizer que toda pessoa precisa realizar três coisas na vida, e a frase de José Martí, poeta cubano, ecoou em mim por anos como uma meta literal:
“Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro: três coisas que toda pessoa deve fazer durante a vida.”
Sonhei com a maternidade por muito tempo. Amei filhos que nasceram no coração, perdi uma gestação, vivi lutos silenciosos a cada Dia das Mães. Até que gerei a criança mais linda, princesa e fofa que já conheci: Anne. Quase quatro anos depois, nasceu de mim o rapazinho mais simpático e carinhoso que o mundo já teve: Isaac.
Ter filhos: ok.
Pegando imagens ilustrativas, e juntando palavras com rimas, improvisei alguns versos e construí estrofes com uma lição de vida que contei ao caçula como tarefa de casa, proposta pela Creche Narizinho. Ao compartilhar com as mamães da turma, uma delas disse que aquilo era digno de publicação. Tudo bem que é conteúdo infantil, ainda não virou uma obra literária, mas está escrito e já teve leitores.
Escrever um livro: ok.

Faltava-me plantar uma árvore.
Lembro que, muitas vezes, semeei caroços de feijão no algodão e os vi brotar até surgirem pequenas folhas, mas nada mais que isso. Nunca havia colhido, de fato, algo que eu mesma tivesse plantado. Era uma meta possível; o mais difícil eu já tinha vivido.
A casa dos meus sogros está situada em um sítio arborizado, de frente para o rio Arrojado, cercado por coqueiros e outras árvores frutíferas. Encontrei ali o cenário ideal para realizar o sonho e cumprir com o meu propósito.

A fruta escolhida foi manga Palmer. Anderson, nosso primo a quem carinhosamente chamamos de Fi, trouxe a muda já grandinha, meu sogro, o mais experiente, coordenou a atividade e eu plantei.

Preparei o solo para a escavação, retirei o plástico que envolvia a terra junto às raízes. Depois cobrimos tudo com terra e adubo, regamos e, claro, registramos em fotografia.
Depois de uns quatro anos a pequena árvore começou a florescer, formar frutos e, finalmente, nos presentear com mangas enormes, amarelas como o sol, perfumadas como a manhã e doces como mel.

Para nossa surpresa, galhos foram invadidos por uma espécie de manga diversa da que plantamos. Menor, sua presença destoava da beleza exuberante de minhas mangas preferidas. Era indesejada. Eu não havia plantado aquilo. O sabor também era muito inferior. Como gostaria que aqueles galhos fossem carregados do que a muda prometera. Até hoje, para mim, colher o que não plantei foi um mistério, além de infortúnio.
Isso me fez questionar uma das sentenças mais repetidas da vida: “você colhe o que planta”. Será?

“>Onde ficam, então, os trabalhos silenciosos dos pássaros, que semeiam sementes pelo bico? Como ignorar os ventos que carregam pólens de longe? E o que dizer das ervas daninhas que nascem a despeito da vontade do agricultor?
Na roça, o pessoal usa enxada, foice, ou até veneno, para arrancar o que não presta e preservar o que é necessário.
No solo da vida, também há situações que germinam sem autorização. Enxertos desconhecidos, sementes trazidas pelo tempo, frutos que não pedimos.

Ainda assim, seguimos responsáveis pela terra que cultivamos. Cuidar da terra, nesses casos, não é concordar com a colheita, mas decidir o que fazemos a partir dela, porque desistir nunca fez brotar nada melhor.





