Publicada em 26/1/2025, às 6h10

Senhor carteiro!
Por Thaise Cotrim

Ele sonhava em vestir uma farda. Talvez para provocar admiração e respeito por onde passasse. Penso que só queria marcar presença, carregar uma arma para sua satisfação e sentimento de poder.
Mas o destino escolheu outro rumo. Contrariando seu desejo, foi dispensado no alistamento e tornou-se reservista. Seguiu vivendo apenas como civil, estudando, trabalhando… Trabalhando, jogando bola e levando a vida como dava…

Casou-se e, desejando proporcionar melhor estrutura à família, começou a saga dos concursos. Deve ter feito vários: DETRAN, DNIT, Tribunal Regional Federal e outros tantos do poder executivo. Mas o fato é que, numa dessas provas em que o concurseiro, desesperado por um emprego estável, enfrentou um certame com mais de cem candidatos por vaga e provou, no papel, suas propriedades cognitivas.
Não foi apenas uma prova, foi trajetória. O edital cobrava preparo, foco e responsabilidade: letras que exigiam atenção, números que testavam o raciocínio e perguntas que pediam ciência das atualidades, consciência do mundo e do serviço público postal. E quando o cérebro tinha feito sua parte e garantido a classificação, o corpo foi chamado para o teste de Aptidão Física (TAF): correr, resistir, sustentar. Muitos ficaram pelo caminho. Seguir adiante e superar os pensamentos negativos exigiu mais do que conhecimento. Exigiu preparo físico, constância, esforço e a decisão de não desistir.

Viva a posse! Que realização passar a integrar uma empresa centenária e tão relevante. Desde 1663, quando nasceu o Correio-Mor no Brasil, os Correios caminham junto com a história nacional. Foi pelas mãos de um carteiro, Paulo Bregaro, que chegou a Dom Pedro, às margens do Ipiranga, a carta vinda de Portugal com novas exigências da Corte. Ao lê-la, o imperador não apenas reagiu, rompeu. E ali, entre palavras entregues e destinos traçados, o Brasil declarou sua independência.
Mas calma: o candidato ainda não é empregado e nem ainda conquistou a própria independência financeira. Antes, mais uma etapa. Tá pensando o quê? Todos passam por uma integração institucional, por um treinamento técnico operacional e é ali que o então quase carteiro aprende sobre o “peso da bolsa” que carrega. Compreende que não vai lidar apenas com rotas e procedimentos, mas com o cuidado. Aprende sobre a responsabilidade de quem entrega sem invadir, de quem aproxima distâncias, sustenta vínculos e atenua ausências, servindo, muitas vezes, sem ser visto.

Aquele que sonhava em usar farda militar usa outra, mas também reconhecida por onde passa. Uma farda azul e amarela, que não impõe continência, mas atravessa portões, ruas e histórias. Com ela, muitas portas se abrem e, geralmente, é recebido com um sorriso no rosto e um “graças a Deus que você chegou”. Sua arma é a gentileza, mesmo quando o portão se abre com irritação, porque ele bateu forte querendo apenas ser ouvido e abreviar o término das urgências.

Obrigada, senhor carteiro. Pelas cartinhas que me entregou quando eu tinha apenas oito anos de idade, da amiga Makiko Helena Itó, uma japonesa cerca de 10 anos mais velha que morava num colégio interno e de quem nunca mais tive notícias.

Obrigada também por me trazer e enviar cartas diárias no ano de 2005. Você foi o elo entre uma jovem universitária em São Paulo e seu noivo que morava em Goiânia. Na ausência dos corpos, os desenhos das letras e flores secas coladas nas folhas de papel faziam o coração de cada um vibrar tão forte quanto o desejo do reencontro. Graças a você, pudemos alimentar o sentimento um do outro a ponto de culminar a emoção em um enlace matrimonial.
Por fim, obrigada, senhor meu carteiro. Porque se aos clientes você entrega desejos, sonhos e expectativas, aos seus, no fim de cada tarde e ao final de cada mês, levas para sua casa sustento e dignidade.
25 de Janeiro – Dia do Carteiro.






O texto de Thaise é substancioso, oportuno e pedagógico.
Parabéns à autora, pela clareza e precisão!