Publicada em 28/1/2025, às 11h45

ÁLVARO DE NICINHA, O LOCUTOR ANARQUISTA DE CORRENTINA

Neste clima de pré carnaval, aproveito para homenagear um dos correntinenses mais geniais e irreverentes da história local, Álvaro de Nicinha. Filho natural de Mariquinha adotado por Nicinha, destacou-se pelo papel que anualmente desempenhava, na condição de Rei Momo, em época de Carnaval da cidade.
Vale lembrar que Correntina sempre figurou como uma cidade de grandes locutores. É o caso de figuras do talento de João Guerra, Iozinho, Raimundo Barata, Vadú, Sorriso e outros. Contudo, neste universo de grandes expressões, destaca-se exatamente Álvaro de Nicinha. Ele era o tipo farrista, brincalhão e gargalhador inigualável. Devido o seu espevitamento era comum, à época, encontrá-lo no final da tarde e à noite, após o expediente, na porta de sua mãe Nicinha, ladeado de amigos. Ali, costumeiramente, entre uma biriitinha e outra, fumava um cigarro. A prosa avançava noite adentro, enquanto Álvaro animava o ambiente, compartilhando suas pilhérias e piadas.

Sou testemunho porque o conheci solteirão, camisa ao ombro, chinelo nos pés, andando pelas ruas da cidade, principalmente, nas beiradas do Ranchão. Participava de tudo quanto havia na cidade, informava e se informava sobre praticamente tudo que acontecia para além do município. Extremamente festeiro e carnavalesco, o inventivo jovem fazia ecoar versos que ele próprio, com voz grave e profunda, cantava. Além disto, costumava iluminar as mentes dos correntinenses com aforismas e pensamentos filosóficos. Detentor de um vocabulário rebuscado, sua forma de expressar denotava fina educação e notório saber literário.
Embora ele tivesse o dom de encantar a população pela beleza e pelo charme de sua entonação vocal, demonstrava, todavia, ser uma figura meio impulsiva. Isto porque, ora o nosso Inestimável se apresentava com aparente desleixo, ora portava-se como cidadão centrado e exageradamente formal, consoante a ocasião. Por ocasião dos Blocos de Carnaval, o nosso personagem apresentava-se com as mais belas e vibrantes fantasias, chamando atenção do público e soltando “pabulagens”, “indecências e sacanagens…” Porém, nos eventos cívicos e nas recepções de altas autoridades, comportava-se e apresentava-se com rigor e elegância, sempre bem alinhado, dentro de um terno. Álvaro tinha bom gosto, se expressava bem e possuía um vasto vocabulário, além do extraordinário repertório musical. Em matéria de músicas, incluindo as internacionais, era capaz de apresentar os títulos em inglês, francês, italiano, espanhol, por exemplo. Recordo-me de alguns títulos musicais, como: o Tema de Lara, o Il Silêncio; Bandas estrangeiras como: TheBeatles, The Rolling Stones e nacionais; os Pholhas, os Incríveis e outras formações que estavam na moda à época. Era ele quem ligava as cornetas dos alto-falantes da prefeitura, colocando no ar as mais belas canções, recitando os mais belos poemas, anunciando as novidades locais, regionais e nacionais. Não era incomum encontrar Álvaro lendo, a todo momento. Caracterizava-se por não poupar ninguém de suas críticas, nem mesmo a igreja.

Certa vez o filho de Nicinha implicou com o locutor da paróquia, simplesmente porque o mesmo teria lido uma mensagem que dizia: “neste natal não se preocupe somente com o peru assado.” Em outra ocasião, irritou-se com a igreja porque esta criticava os excessos do Carnaval. Tudo era motivo suficiente para Álvaro disparar contra a Santa Mater Eclésia e seus lideres. Não obstante, é justo reconhecer que a cidade e o Carnaval devem muito a esta figura. Álvaro foi o nosso mais importante Rei Momo, além de um dos maiores entusiastas desse gênero popular. Sempre alavancou o Carnaval animando, estimulando e ampliando a criatividade imaginativa dos foliões, tornando o evento um dos maiores da nossa terra.





Para complementar a biografia do meu grande amigo.
Foi a pessoa mais generosa e caridosa q eu pude ver.
O acompanhei por várias vezes na madrugada, para ajudá-lo em entregas de alimentos em “casas de beco de ruas”… onde ele sabia q não tinha alimentos em casa…. Agente chegava e batia na porta. E esperava, se ninguém saia, deixávamos no “ alpendre” e íamos embora.
Depois das caridades, é claro q passávamos nas Paturis para roubar uma galinha…. Ele tinha uma tática de com uma cara cossar o pescoço da bichinha e ela pulava na vara, aí era só partir para o abraço…. E depois brigávamos pela moela, até hoje eu não entendi porque a galinha não nasce com duas moelas,… assim eu nunca teria brigado com meu amigo. Rsrs