Publicada em 28/1/2025, às 11h45

Antonio Rocha.
Possui graduação em Filosofia pela PUC Goiás, graduação em Direito, Licenciatura em História, Curso Seminarístico de Filosofia pelo Instituto de Filosofia/teologia de Goiás, Curso livre em Teologia (1993), especialização em Filosofia Clínica, e mestrado em Ciências da Religião pela PUC Goiás. Ex- Professor efetivo da PUC Goiás, foi professor convidado do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás.

ÁLVARO DE NICINHA, O LOCUTOR ANARQUISTA DE CORRENTINA

Foto divulgação/acervo Louro de Maninho.

Neste clima de pré carnaval, aproveito para homenagear um dos correntinenses mais geniais e irreverentes da história local, Álvaro de Nicinha. Filho natural de Mariquinha adotado por Nicinha, destacou-se pelo papel que anualmente desempenhava, na condição de Rei Momo, em época de Carnaval da cidade.

Vale lembrar que Correntina sempre figurou como uma cidade de grandes locutores. É o caso de figuras do talento de João Guerra, Iozinho, Raimundo Barata, Vadú, Sorriso e outros. Contudo, neste universo de grandes expressões, destaca-se exatamente Álvaro de Nicinha. Ele era o tipo farrista, brincalhão e gargalhador inigualável. Devido o seu espevitamento era comum, à época, encontrá-lo no final da tarde e à noite, após o expediente, na porta de sua mãe Nicinha, ladeado de amigos. Ali, costumeiramente, entre uma biriitinha e outra, fumava um cigarro. A prosa avançava noite adentro, enquanto Álvaro animava o ambiente, compartilhando suas pilhérias e piadas.

Foto: Djalma, Itamar, Álvaro de Nicinha e Ilka/acervo Louro de Maninho

Sou testemunho porque o conheci solteirão, camisa ao ombro, chinelo nos pés, andando pelas ruas da cidade, principalmente, nas beiradas do Ranchão. Participava de tudo quanto havia na cidade, informava e se informava sobre praticamente tudo que acontecia para além do município. Extremamente festeiro e carnavalesco, o inventivo jovem fazia ecoar versos que ele próprio, com voz grave e profunda, cantava. Além disto, costumava iluminar as mentes dos correntinenses com aforismas e pensamentos filosóficos. Detentor de um vocabulário rebuscado, sua forma de expressar denotava fina educação e notório saber literário.

Embora ele tivesse o dom de encantar a população pela beleza e pelo charme de sua entonação vocal, demonstrava, todavia, ser uma figura meio impulsiva. Isto porque, ora o nosso Inestimável se apresentava com aparente desleixo, ora portava-se como cidadão centrado e exageradamente formal, consoante a ocasião. Por ocasião dos Blocos de Carnaval, o nosso personagem apresentava-se com as mais belas e vibrantes fantasias, chamando atenção do público e soltando “pabulagens”, “indecências e sacanagens…” Porém, nos eventos cívicos e nas recepções de altas autoridades, comportava-se e apresentava-se com rigor e elegância, sempre bem alinhado, dentro de um terno. Álvaro tinha bom gosto, se expressava bem e possuía um vasto vocabulário, além do extraordinário repertório musical. Em matéria de músicas, incluindo as internacionais, era capaz de apresentar os títulos em inglês, francês, italiano, espanhol, por exemplo. Recordo-me de alguns títulos musicais, como: o Tema de Lara, o Il Silêncio; Bandas estrangeiras como: TheBeatles, The Rolling Stones e nacionais; os Pholhas, os Incríveis e outras formações que estavam na moda à época. Era ele quem ligava as cornetas dos alto-falantes da prefeitura, colocando no ar as mais belas canções, recitando os mais belos poemas, anunciando as novidades locais, regionais e nacionais. Não era incomum encontrar Álvaro lendo, a todo momento. Caracterizava-se  por não poupar ninguém de suas críticas, nem mesmo a igreja.

Foto divulgação/acervo Louro de Maninho.

Certa vez o filho de Nicinha implicou com o locutor da paróquia, simplesmente porque o mesmo teria lido uma mensagem que dizia: “neste natal não se preocupe somente com o peru assado.” Em outra ocasião, irritou-se com a igreja porque esta criticava os excessos do Carnaval. Tudo era motivo suficiente para Álvaro disparar contra a Santa Mater Eclésia e seus lideres. Não obstante, é justo reconhecer que a cidade e o Carnaval devem muito a esta figura. Álvaro foi o nosso mais importante Rei Momo, além de um dos maiores entusiastas desse gênero popular. Sempre alavancou o Carnaval animando, estimulando e ampliando a criatividade imaginativa dos foliões, tornando o evento um dos maiores da nossa terra.

1 COMENTÁRIO

  1. Para complementar a biografia do meu grande amigo.
    Foi a pessoa mais generosa e caridosa q eu pude ver.
    O acompanhei por várias vezes na madrugada, para ajudá-lo em entregas de alimentos em “casas de beco de ruas”… onde ele sabia q não tinha alimentos em casa…. Agente chegava e batia na porta. E esperava, se ninguém saia, deixávamos no “ alpendre” e íamos embora.
    Depois das caridades, é claro q passávamos nas Paturis para roubar uma galinha…. Ele tinha uma tática de com uma cara cossar o pescoço da bichinha e ela pulava na vara, aí era só partir para o abraço…. E depois brigávamos pela moela, até hoje eu não entendi porque a galinha não nasce com duas moelas,… assim eu nunca teria brigado com meu amigo. Rsrs

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.