Publicado em 4/2/2026, ás 7h50

Os chafarizes de Correntina e suas funções para além do abastecimento de Água.
Por Antonio Rocha.

Foto ilustrativa.

As cenas as quais me reporto hoje, são as cenas produzidas nos Chafarizes da cidade de Correntina. E lá se vai tempo. Isto foi há muitos anos atrás, época em que não havia água encanada nas casas, contudo, o poder público municipal de Correntina já disponibilizava o produto nos bairros da cidade. Para atender a população, foram construídos Chafarizes em vários pontos na cidade: em frente ao Cemitério antigo, no Alto do Cancelão, no Bairro de São Lázaro, nos fundos do atual Banco do Brasil, na Rua da Barragem, na Rua da Chácara e na Rua da Varginha. Uma redenção para o povo! Isto, porque, encurtava a distância e o trabalho de buscar água no rio. Todavia, quando faltava água nas torneiras, era um “deus nos acuda!” Xingamentos daqui, praguejamento d’acolá… Era desse modo que as pessoas iam vencendo a raiva e a frustração. Ao cabo, todos voltavam com os potes, moringas e latas vazias para casa. Mais tarde, quando a água voltava, na posse de tal informação, as pessoas gritavam pelas ruas: a água chegou; a água chegou minha gente!

Foto ilustrativa.
Foto ilustrativa.
Foto ilustrativa.

Contudo, se porventura a água não voltasse, a procissão dos sedentos direcionava-se para o rio, ladeira abaixo. Apesar disso, ainda assim valia apena. Isto porque todos podiam se esbaldar naquelas águas cristalinas, límpidas e potáveis sem, todavia, correr-se risco de contaminação. O chafariz era só uma gota d’água; um chamariz para tudo acontecer. A lata cheia na cabeça, o menino banhado, a roupa lavada, a amizade tecida e o amor conquistado. Claro! Aquele Serviço Público Municipal de Correntina fornecia mais do que água para a população. Ele possibilitava também múltiplos e freqüentes encontros entre as pessoas, assim como trocas de valores e solidariedade.

Foto ilustrativa.
Foto ilustrativa.
Foto ilustrativa.

Para os Chafarizes acorriam homens, mulheres, crianças e adolescentes. Alguns com latas e baldes em suas cabeças, outros, empurrando carrinhos de mão. Carroças eram puxadas por cavalos, carros tracionados por bois. Além das charretes puxadas por outros animais. Todavia, quem vivia mesmo no trecho eram os jumentos, cheios de cantis pendurados nas cangalhas. Recorda-se aqui os homens com cambões enfileirando latas e baldes no pau pereira. Não comparando mal, o caminho para os Chafarizes até parecia uma procissão de penitentes cumprindo promessas. A qualquer hora do dia ou da noite, não importando o tempo, poder-se-ia ver gente abrindo e fechando torneiras.

Foto ilustrativa – homem com cambão.

Nos Chafarizes, a freqüência era intensa. Davam-se banhos em crianças, escovavam cachorros, lavavam cavalos e davam de beber aos jumentos… Lavavam-se a louça banhava os rostos, escovavam-se os dentes, banhavam-se os pés, e até as roupas e as mágoas eram lavadas. Porém, existiam contendas de gente impaciente. Isto porque muitos abusavam do tempo e da paciência dos que, com pressa, disputavam lugar no chafariz. É que, os abusados faziam as pessoas enfileiradas esperarem horas afio, enquanto estes realizavam todos os serviços pacienciosamente, debaixo da torneira do Chafariz em bicas. Devido ao mau uso ou desgaste natural dos equipamentos, havia muitos aborrecimentos pelo desperdiço de água ou a falta da mesma.

Foto ilustrativa.

Quando isso acontecia e, não era raro acontecer, recorria-se a Zé da Bomba, que acudia com os reparos necessários. Esses tais chafarizes eram instalados geralmente nas extremidades da cidade, nos lugares mais carentes. Sem duvida, um necessário e justo serviço prestado à população pela administração pública de Correntina. Porque, além do fornecimento de água, os Chafarizes propiciaram também encontros afetivos, troca de experiência de vida, construção de sólidas e boas amizades, e até mesmo alguns namoricos resultando em casamentos.

Foto ilustrativa.

Ah, é preciso dizer também, que muitas lições de hábitos higiênicos e de boas maneiras, aconteciam exatamente ali. Recordo-me das filhas de Chichico, portando suas desconhecidas saboneteiras e cremes dentais, para a habitual higienização à beira do Chafariz, que ficava aos fundos de sua casa. Tornara-se comum muitos se dirigirem para aquele lugar, portando as suas tralhas para o trato da assepsia. Assim, enquanto as crianças sofriam debaixo da torneira de água, com as mães arrancando-lhes as tiriricas dos pés com cacos de telhas, os adultos preferiam o horário da meia noite, para os seus banhos noturnos e invisíveis, debaixo dos chafarizes.

Foto ilustrativa.

Por fim, conclui-se aqui, que aqueles Chafarizes não eram apenas mais um importante Serviço Público de distribuição de água, mas, sim, um ambiente social capaz de distribuir trocas de gentilezas, de construir relações sociais, de promover profundas amizades e oportunizar lições educativas, para o bom cuidado da saúde mental e do corpo.

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