Publicado em 2/2/2025, às 8h40
AS QUATRO ESTAÇÕES
Por Antonio Rocha

Não sei o leitor, mas eu, particularmente, aprecio olhar, observar e contemplar as estações do ano, principalmente, quando elas são bem definidas e distribuídas. Assim, tive a feliz oportunidade, de, num razoável tempo de minha vida, vivenciar a experiência de um profundo mergulho, num gélido inverno, para depois sair e entrar num aquecido verão, com todas as suas luzes e encantos. Exato lá… Na Europa central. Ali estava eu a contemplar o dourado outono, para, em outro instante, encantar-me com o mosaico colorido da primavera e suas borboletas de variadas cores. Tudo ali pulsando vida, e, com todos os seus admiráveis encantos…

A propósito deste insight, as memórias me ocorrem como águas de cachoeira. Recordo-me, naquele contexto, de um longo inverno que atravessei, no qual, poder-se-ia ver pessoas perdidas em si mesmas e nos seus felpudos casacos, dispensando qualquer aproximação amistosa. Sim! Foi logo depois de um belo outono, quando as cores amarelas dos bosques, vão dando lugar aos tons alaranjados quase ouro, até, por fim, se tornarem cinzas, perdendo, na lentidão do tempo, a sua originalidade. Daí em diante o intenso frio e o incômodo inverno, fechando portas e janelas, a vida e o coração humano.
Dormi e acordei para ver, no compasso do tempo, o pipocar das flores da primavera. Isso acontece, quando o calor, devagarzinho, injeta vida e vigor nos viventes. Aí, o que se pode ver, é gente de toda sorte retornar aos seus coloridos quintais e jardins, ou a algumas esquinas de avenidas, para se aquecerem ao sol. Claro, todos ladeados de seus pares, com suas amistosas conversas e sons musicais. Também participavam desse clima de alegria, as orquestras das passaradas que, pressentindo o verão europeu, retornavam de outras partes do planeta, rumo aos seus lares. Além disso, somavam a essa sinfonia musical, os sons dos acordeons, das flautas, dos clarinetes, dos saxes, do violão, dos violoncelos e das percussões.

Repare, caro leitor! Assim é a nossa existência… A nossa vida também é marcada e regulada por um fenômeno similar às estações do ano. Se é verdade que as estações definem a cara do tempo em suas variações, também é verdade que nós humanos, estamos, inexoravelmente, fadados a atravessar estações existenciais.
De fato, a natureza, na sua inteligência e sensibilidade, sabe atualizar sempre o seu ciclo. Aprendamos com ela, embora tenhamos que, inevitavelmente, enfrentar o rigor do inverno e a dureza do verão, porém, há de chegar sempre, em nossas vidas, uma bonita primavera. Pena que muitos de nós não conseguimos ou não aprendemos a vencer o ciclo das estações e os seus rigores, no cotidiano das nossas vidas. Assim, uns, lamentavelmente, fixam-se no outono, outros no verão, outros no rigoroso e interminável inverno, sem que consigam chegar à estação florida.

As razões para tal estagnação são muitas e variadas. Contudo, “cada um sabe onde o sapato aperta.” Oxalá que todos pudessem atravessar todas as estações, no seu ciclo existencial, com segurança e naturalidade. Na minha, na sua, na vida de todos nós haverá sempre períodos de outono, de verão e de inverno. No entanto, há também de ter um doce e agradável frescor primaveril.





