Publicado em 31/3/2026, às 6h06.

A LENDA DO ATRASO DO DESENVOLVIMENTO DE CORRENTINA
Por Antonio Rocha.
Correntina já é uma senhora, vivida e experiente mas, inúmeras décadas após sua emancipação, indagam-se sobre o porquê de a cidade permanecer estagnada.
A indagação é pertinente, posto que o município já hospedou fábricas e indústrias, embora com estruturas rudimentares. Sediou, por exemplo, usinas algodoeiras e de arroz, produção agropastoril, minérios, além de ciência, imprensa escrita e qualitativa arte cênica. Contou, inclusive, com um posto fluvial voltado à exportação de mercadorias. Mas então, que gargalos bloqueiam o desenvolvimento da cidade?
Um município gerador de energia elétrica, elevado nível de riquezas produzidas pelo agronegócio, além do potencial turístico que lhe caracteriza. A percepção geral, inclusive do cidadão comum, converge para a responsabilidade das más gestões, da inabilidade administrativa e dos espúrios conchavos políticos que manipulam a população. Entretanto, há uma motivação para a qual ninguém se atina, talvez devido à obscura e embaçada realidade, laureada de misteriosos influxos transcendentais.
Trata-se do típico fenômeno que opera no âmbito da fé ou da superstição. Nos dias atuais, que a ciência e os economistas a tudo respondem, sem margens para divagações ou questionamentos de outra natureza, os movimentos pela perpetuação do atraso do município passam despercebidos. É que, há tempos, gerações foram amedrontadas pelos ritos, pelas palavras e jaculatórias do vigário local. Diziam as línguas que um certo padre, contrariado em face do pouco caso que faziam dele, da zombaria, do menosprezo e da leniência da gente da freguesia, praguejou a cidade. O sacerdote sentenciou que, doravante, nem o município nem a sua gente iria adiante. Cuspiu no chão, abanou o chapéu, sacudiu a poeira do sapato e partiu, para nunca mais retornar.
Dizem que, depois disso, a cidade ficou muito tempo sem vigário, enquanto a população comia o pão que o diabo amassou. Suplicaram, então, por um novo padre, mas a região nunca mais foi a mesma. De lá para cá a toada é essa. Uma cidade com um PIB do tamanho do de Correntina, além de entrecortada por rios e terras agricultáveis, por que o município permanece o mesmo de tempos atrás? Em que pese a propalada lenda da praga contra a cidade, eu mesmo nunca tinha ouvido falar dela. Tinha ouvido, porém, que a praga fora dirigida para o distrito do Mocambo. O boato era de que ali o vigário não teve vida fácil. Era “um tal” de furar os pneus do Jeep, tomar cachaça na porta da igreja, fazer arruaças e desordens. Contudo, muitas pessoas achavam que Correntina também fora praguejada, pois sofria do mesmo mal. É sabido que inúmeras vezes o Jeep do padre André teve os pneus furados e fora empurrado ladeira abaixo, isto é verdade! Costumavam, também, apertar a buzina do carro, na hora da santa missa.
Mas será mesmo verdade que a praga do padre fez esse estrago todo, ou alguém quer se esconder por trás dessa lenda? Não acredito! Padre é do bem e, qualquer forma, é incompreensível a lentidão de Correntina na sua marcha para o progresso. Pior do que isto é a sua insensibilidade na partilha e na distribuição das riquezas, ou mesmo na geração de empregos. Que os nossos gestores não usem tal argumentação macabra, nem se escondam por trás da suposta maldição do padre, para justificarem as suas inoperâncias.





