Publicado em 9/1/2025, às 7h52

O RIO E A FÉ
Por Antonio Rocha

No Livro Santo já dizia: há tempo para tudo! Há tempo para pensar, para refletir, para revisar e para rezar. Quem pensa, revisa, e quem revisa lembra-se, inclusive, das muitas passagens da vida. Eu, a propósito, lembro-me de que nas águas de um rio corrente, joguei-me várias vezes por semana. Primeiro, deitando-me na fina areia do seu leito, só para eu sentir a macieza dos seus finos grãos tocando a minha pele. Depois, aquecendo-me nas águas mornas que batiam em meu corpo, como que um afetuoso abraço…


Vencida essa etapa, em compassos lentos, eu batia os braços sobre o manto aquático do rio, procurando alcançar o seu centro para, enfim, entregar-me à força de suas correntezas. Mergulhava e emergia, sucessivamente, para, em seguida, abandonar-me ao sabor do seu balanço rio abaixo. Aquelas águas me levavam como o deslizar de um barquinho de papel sobre uma lamina d’água. Vez ou outra eu batia braçadas, uma ali, outra acolá só para controlar o rumo e a direção da minha diletante viagem.

Novamente, vez sim, vez não, eu olhava para uma margem; olhava para outra… E em seguida virava de barriga para cima e, como criança mirava o céu, enquanto as águas iam me conduzindo. Era uma perfeita interação entre mim e as águas daquele rio! E, se é verdade que elas é que me levavam, por outro lado, era eu que ditava a direção. Assim eu continuava ali… Uma braçada aqui, outra acolá… Eu ia, dessa forma, sentindo o meu corpo leve como que num exercício de levitação, ou como contemplação no silêncio da solidão de um deserto.

Certamente, para um rio nos conduzir, é preciso que nele entremos até alcançarmos as forças das suas correntezas. Este exercício me fez meditar sobre a Fé. Chego mesmo a pensar que ter Fé é como entrar num rio e se envolver. Nesse sentido, eu entro nela e ela entra em mim; eu me envolvo nela e ela se envolve em mim; eu vivo nela e ela vive em mim; eu dou testemunho dela e ela dá testemunho de mim.

Desse modo, é como numa dança: ora ela me conduz, ora sou eu a conduzi-la. Todavia, para que isso aconteça, eu preciso sair das margens e caminhar para o seu centro até encontrar o ritmo do compasso e me deixar por ele embalar.

Enfim, devo concordar que encher-se de fé é como que mergulhar num rio e se deixar abandonar nas suas águas. Porém, confiante de que a sua força conduzirá, por certo, ao destino final. Contudo, atenção, pois, na Fé como no Rio, deve-se entrar devagarzinho, experimentando e aquecendo, para depois se entregar às suas ondas e às suas correntezas…





