Publicada em 3/2/2025, às 9h25

Thaise Cotrim – Graduada em Letras (UNASP), servidora pública federal, casada, cristã e colunista.

Não era só sobre gatos
Por Thaise Cotrim

Imagem ilustrativa.

Ela passou a primeira infância num barraco de madeira sem cor definida; desses em que o lado de fora entrava pelas frestas da parede. Os cômodos não tinham divisórias: os móveis faziam esse papel. A estante separava sala e cozinha; o fundo do guarda-roupa, junto de uma cortina improvisada, delimitava e escondia o quarto.

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A pia ficava do lado de fora, dividida com outras famílias, assim como o banheiro. O banho era de bica, água fria, jato forte caindo direto do cano simples. A vida lhe deu, com isso, muitos motivos para sonhar com coisas simples.

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Entre as melhores lembranças do passado, ela poderia enumerar as galinhas chocadeiras, pintinhos, cachorro, canário-da-terra e até coelho, além das brincadeiras de rua com os vizinhos e primos, Ah! Doce infância. Mas também havia medos. E aqui entram os gatos: olhares desconfiados, passos no telhado e gritos na noite escura assustavam ao romper o silêncio estrelado. Se fossem pretos, então… davam azar, como diziam os mais velhos.

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Depois veio a casa de tijolos. Ainda se dormia num sofá-cama, mas o banheiro tinha chuveiro e água quente. O animal de estimação era um Dog Alemão que batia no peito do pai, era preto, peito branco, orelhas em pé, bonitão. Na gaiola, um casal de periquitos australianos e três filhotes que eram alimentados, com cuidado, pelas mãos caçulas da casa.

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Como toda criança, ela experimentou o gosto amargo da perda… Viu acontecer uma tragédia com os três filhotes e, ao voltar de férias, não encontrou mais o amigo que lhe dava a pata direita ao cumprimentá-la. Onde estaria o  King? Pelos relatos, ele fora sequestrado. Nunca mais se teve notícias dele. Parece que, de maneira inconsciente, ela escolheu não mais se apegar para evitar o sofrer.

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A maternidade, ainda assim, sempre foi um sonho. Vieram dois filhos e, com eles, a aproximação com os animaizinhos. O pedido por um pet era frequente. A resposta, sempre, não. Não por falta de afeto, mas, talvez, por excesso de memória. O carinho com amigos de quatro patas acontecia na casa dos avós: emprestado, temporário.

Até que um dia cada filho ganhou um gatinho. O mais peludo, pretinho como petróleo, recebeu o nome de Chico. O irmão, preto e branco, foi chamado de Bento. Não dava para recusar o presente. Não quando a alegria dos filhos era tão visível que transparecia no fechar dos olhos ao afagar os pelos da cabeça de cada gatinho.

Chico tinha um olhar manso, nada de azar. Bento era mais serelepe. Os dois aprenderam rápido a subir no colo e a “ralar mandioca”…ops, a ronronar sem pedir licença, a transformar toque em afeto. E assim, quase sem perceber, a simpatia pelos bichanos aconteceu.

Não mais de longe, ela passou a acariciar os animais, pegava-os no colo e até deitava na rede com qualquer um deles que  tivesse na frente. Isso provocou a filha, que disse:

– Nunca pensei que um dia ia ver a senhora pegando o Chico, mamãe.

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Havia surpresa, mas também satisfação naquela fala. O preto que dava medo no telhado é o mesmo preto que agora ronrona no colo. A mãe respondeu apenas um “pois é”. E, mesmo sem entender completamente, parecia concluir que o amor pelo outro pode ser capaz de alcançar tudo aquilo que lhe faz bem.

Imagem acervo de Thaise Cotrim.

Os traumas e bloqueios do passado não tiveram poder sobre os afetos do presente.

E isso nunca foi só sobre filhos, nem gatos.

 

 

 

 

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