Publicado em 13/1/2025 às 16h10

Mergulhos Perdidos
Por Thaise Cotrim

Final de ano carrega sempre uma promessa silenciosa de recomeço.

Entre confraternizações, abraços demorados, fogos de artifício e o toque de taças, há um cenário, quase um enredo, que nos devolve a esperança de recomeçar, de realizar sonhos passados e de ousar novos projetos. (Tim-tim)

Para as crianças, no entanto, o maior presente costuma ser outro: a chegada dos familiares distantes, os primos que aparecem para desfrutar as férias.
Ah… férias!
O nosso dezembro, como de costume, trouxe o meu querido sobrinho Enzzo. Desta vez, veio acompanhado de um novo amigo, Will.

Moramos em Correntina, uma joia do Oeste baiano, região abraçada por cinco rios de águas correntes, todos cristalinos, integrantes da bacia do rio São Francisco. Aqui, a areia repousa sob a água, dividindo espaço com pedras e rochas antigas. O sal só aparece para temperar a batata frita do petisco, porque o rio Corrente, que atravessa o coração da cidade, é doce…doce a ponto de refrigerar a alma.
Quando o sol fica mais escaldante, o destino é indubitável: banho de riooooo. Vamos?
Numa dessas tardes, resolvemos embarcar em nosso antigo jipe pretocom destino ao Ranchão, ali perto da Praça Verde. A surpresa foi grande. O local estava cheio. Som alto, mesas ocupadas, conversas paralelas, pessoas bebendo, outras mergulhando no grande remanso de água cristalina que reluzia sob o sol.
Os “adolejovens” não quiseram encarar a pequena multidão.Fecharam o semblante e disseram que não entrariam na água com tanta gente. Quase surtei. Confesso. Depois de todo o trajeto?Procurei me conter. A tarde seguia seu curso, cada grupo estava vivendo o próprio momento. Era só tirar as sandálias e entrar…

Sugeri, então, irmos mais adiante, na esperança de encontrar uma fonte desocupada. Mas em toda parte já havia algum grupo de pessoas. Durante a caminhada, reconhecemos o Elcinho, um primo que se banhava com a família na outra margem do rio. Ele acenou. Todos aceitaram se unir ao conhecido grupo.
Atravessamos a ponte, passamos por uma cerca de arame e, entre árvores, cipós e grandes rochas, finalmente chegamos. O lugar era bom, mas sem a estrutura organizada da área próxima à Praça Verde. Eu nem cheguei a entrar na água. Eles, depois de alguns mergulhos, caminharam contra a correnteza até alcançar uma pequena cachoeira. Talvez tenham aproveitado uma breve hidromassagem natural.
Mas logo veio o desconforto. Sanguessugas. Enquanto eu tentava manter as muriçocas afastadas, eles se livravam dos pequenos ataques silenciosos. A correnteza era forte, o espaço para mergulho era limitado. Temi pela segurança do meu filho caçula. Saímos dali e voltamos ao local de origem.

O cenário havia mudado. O número de pessoas era menor. O sol se tornava tímido, anunciando despedida. Meus filhos entraram no rio com o pai e aproveitaram a água aberta para mergulhos, braçadas, risadas e abraços.
Notei Enzzo e Will sentados à margem, ainda molhados. Perguntei por que não se juntavam à alegria que o rio prometia. Enzzo respondeu com os olhos baixos.
– Vou não tia, estou meio traumatizado, na cachoeira teve sanguessuga que colou em minha pele, estou com agonia e tenho medo de ter mais sanguessuga aí…
Fiquei triste por ele. Para um garoto de quinze anos, um banho de rio, longe das telas, é mais que lazer. É memória sendo construída. E ele perdeu a possibilidade de extensão daquele momento tão desejado.
Foi ali que a reflexão se impôs.
Quantas vezes deixamos de viver algo que realmente queremos por receio do olhar alheio? Às vezes esse olhar sequer existe. Outras vezes pode até ser presente, mas ainda assim não deveria nos paralisar. Enquanto hesitamos, o tempo segue. O sol perde o brilho, o caminho cansa e o resultado pode vir em pequenas perdas e cicatrizes, como o sangue sugado dos meninos e os calombos em minhas pernas.
Ainda estamos no primeiro mês do ano.
Que nossos sonhos e projetos não se percam assim. Que não deixemos de tentar, viver ou mergulhar por vergonha, medo ou excesso de cautela diante do outro ou de suposições. Porque, enquanto pensamos demais ou procuramos outros caminhos, a vida segue… como o sol que se põe. E alguns mergulhos, uma vez perdidos, não voltam mais.






