Publicado em 6/1/2025, às 8h30.

O Sabor do Cuidado
Por Thaise Cotrim

Nunca fui muito dada aos afazeres domésticos, mas, como boa apreciadora de uma comidinha bem feita, tenho descoberto prazer em estar na cozinha. Talvez porque ali eu consiga oferecer carinho e afeto em forma de alimento para a minha família.

Arroz e feijão são base da comida brasileira e aqui em casa não é diferente. Sempre fresquinhos, bem temperados com sal e alho amassado na hora, espalham aquele cheirinho de comida caseira que ocupa toda a cozinha e a sala de conceito aberto.
Mas nem só de carboidrato viverá (bem) uma família. Eu entendo que para garantir uma alimentação equilibrada é preciso incluir na dieta a “mistura”, isto é, proteínas, legumes e vegetais.

Dias atrás eu preparei uma beterraba, cortei em palitos, cozinhei no vapor e, depois de pronta, dourei o alho no azeite para lembrar aquele gostinho de tempero da vovó. Como de costume, coloquei toda a salada na mesa e, sem qualquer pretensão, pude observar a atitude dos meus três “clientes VIP”.
A filha pré-adolescente, de 11 anos, que antes comia de tudo, fez aquela carinha clássica de rejeição, tipo a Nojinho do filme “Divertida Mente”, sabe? Resmungou um “Affs, não gosto de beterraba assim”, e deixou no cantinho, como quem já tinha decidido o destino final: o lixo.

O menino caçula comeu tudo com a carinha mais satisfeita do mundo e ainda elogiou:
— Hummm que delícia, mamãe. A senhora é a melhor cozinheira do mundo!
Por fim, observei o pai, que só misturou tudo no prato e disse:
— Eu não sou muito fã de beterraba, mas o restante está tão gostoso… e eu sei que a beterraba faz bem pra saúde. Então eu como.
A beterraba era a mesma. Quem preparou, também.
Mas quanta diferença nas reações daqueles a quem ofereci talvez o prato mais rico em nutrientes daquele dia. Aquilo me fez refletir sobre as relações humanas.
Na vida, para aqueles a quem amamos, a gente oferece o que tem de melhor. Prepara sentimentos no vapor da vivência, tempera com palavras escolhidas, azeita com boas intenções. Mas nem todo mundo está pronto para receber.
Alguns rejeitam e jogam fora. Outros aceitam por consideração. E há aqueles raros que recebem com gratidão e ainda nos devolvem afeto.
Talvez você já tenha vivido uma situação assim: aconselhou ou fez algo pelo outro com as melhores intenções e recebeu rejeição em troca.

Isso não diz sobre o seu gesto ou sobre o “tempero” utilizado. Diz muito mais sobre a bagagem, o momento ou a percepção de quem recebe.
Quem sabe você seja aquele que recebeu uma beterraba, ou até um jiló. Não importa. O essencial é considerar toda uma história vivida e se perguntar se a pessoa ofertante é relevante em sua trajetória, se quer o seu bem ou se é alguém que você, ao menos, estima.
Caso a resposta seja positiva, há sempre dois caminhos possíveis: acolher o conselho ou, se não for possível segui-lo, ao menos ouvir, agradecer e não se afastar só por discordar.
Aqui em casa, felizmente, minha menina não descarta toda a comida quando não gosta de um item do cardápio.
Eu sigo preparando beterrabas, mas continuaremos sentando todos juntos à mesa, apesar disso.

E o amor entre mãe e filha seguirá inalterado, mesmo quando o sabor do cuidado não agrada.





