Publicado em 10/2/2026, às 21h10.

Pausas
Por Thaise Cotrim

Entre uma cena e outra, há sempre a tela preta na TV e, depois de uma sequência de cortes que formam um enredo completo, normalmente no momento mais esperado, surge o intervalo comercial.

Enquanto vejo as propagandas, penso em como a vida também insiste nessas telas pretas. A massa de cuscuz precisa dos seus minutos de descanso após ser encharcada, para garantir a hidratação e melhor textura; o tão esperado recreio é um respiro para o aluno infantil, cujo cérebro parece limitar o tempo de foco e se fortalecer com as interações sociais e atividades motoras; o horário de almoço divide com prazer o dia do ser humano, enquanto que o repouso noturno regenera células, alivia o stress e produz e regula diversos hormônios essenciais.

O sinal vermelho está presente no trânsito, no fim de semana garantido por lei, em algumas relações… Tudo isso apenas mostra que a vida não acontece em linha reta. Ela apresenta lacunas e pausas, necessárias ou (in)desejáveis.

Mas há intervalos que são impostos ao coletivo por um calendário. Dizem que o ano só começa depois do carnaval. Talvez seja este um dos feriados mais esperados por artistas, gestores, comerciantes, turistas e foliões. A cidade muda o passo, a rotina se esvai e as horas excedem.
Nem toda pausa regenera, nem todo silêncio acolhe e nenhum intervalo é neutro. As pausas nunca são vazias: revelam hábitos, escolhas e dinâmicas individuais ou de grupos. Ah, belas idiossincrasias. O que cada um faz no tempo livre diz muito sobre suas prioridades e propósitos.

Recrear-se é importante e necessário, mas abusar do próprio corpo não parece prudente. O importante, talvez, não seja como ou para onde a gente corre, mas o que decidimos fazer quando podemos parar.

Alguns preenchem a pausa com barulho, como quem teme escutar o próprio pensamento. Outros a ocupam com encontros, risos, estrada, casa cheia. Há quem aproveite para dormir, para cuidar, para colocar a vida ou a casa em ordem.
Em dias de carnaval, seja na cidade, na roça, na praia ou no retiro, cada um escolhe como preencher a pausa para não deixar lacuna. Há quem se perca, há quem se encontre e, nas batidas ritmadas ou no silêncio contemplativo, fica o desejo de que cada um descubra o que realmente faz sentido.

Que essa pausa nos faça bem. E que o tempo seguinte encontre a gente mais inteiro.






Que bela reflexão!!! Tão leve, tão solta e, igualmente, profunda. Necessária para fazer-nos meditar sobre as nossas pausas, num tempo que teima correr velozmente. Parabéns!
Oss
Texto leve e suave, porém profundo, que conduz quem o lê aos labirintos da vida. Aqueles labirintos que, suigeneres, contém múltiplas saídas. É possível identificar, na obra da nobre autora, uma mescla de arte, literatura e filosofia. Isto, por se só confere-lhe qualidade e e dimensão artística.
Parabéns!
Texto doce, porém, profundo. Gostei, além do lirismo envolvente, pela falta de julgamento sobre o que se deve fazer na pausa. No vazio, na tela preta. Isso me lembra, no lado acadêmico, Orlandi, em Análise do discurso, que estuda o silêncio, o não dito, tão importante, e às vezes mais, do que o falado, exposto. Remete também aos diversos poema e canções que realçam a necessidade da escuridão para que possa existir a luza, a tristeza, para a felicidade etc. Gostei também desse vigor que a autora mantém na qualidade dos seus textos, tanto na maturidade literária quanto do ser. Novamente, parabéns.