Publicado em 10/2/2025, às 6h30.

*Teonei Guerra é Jornalista Provisionado e Corretor de Imóveis.

CORRENTINA – MEMÓRIA
Lino e o boi

Teonei de Araújo Guerra*

Conversando com Lourival da Conceição Miranda, o Louro de Nego de Lino, há alguns dias, ele contou-me que, no ano passado, completou 85 anos que o seu avô, Lino, criou na nossa cidade o Bumba Meu Boi, folguedo que ficou mais conhecido como Boi de Lino, aqui em Correntina. E apesar dos 85 anos terem sido completados no ano passado, mas há menos de um ano, achei oportuno homenagear o Lino e o seu folguedo, contando quem foi esse importante fazedor de Cultura local e como era realizado o folguedo, resgatando assim, essas memórias.

Foto de Lindolfo Francisco de Miranda (Lino do boi) e familiares.

Lindolfo Francisco de Miranda, que recebeu o apelido de Lino, era filho de Adão Francisco de Miranda e Maria das Virgens Vieira, a Maria de Lino. Nasceu em Correntina, na fazenda Belo Horizonte, mais conhecida com a Chácara de Major Félix, em 9 de julho de 1909.  Lino trabalhou na Chácara.

Não se sabe como Lino tomou conhecimento do Bumba Meu Boi, apenas que, em 1940, fez a primeira apresentação do folguedo, que, por se identificar tanto com o seu criador – aqui em Correntina -, passou a ser um complemento no seu apelido, Lino do Boi, e o folguedo, recebeu em troca o apelido do seu “criador”, passando a ser denominado de Boi de Lino. Identificação mútua, portanto.

O QUE ERA O BOI DE LINO – Para melhor entendimento do leitor, que pode não ter conhecimento do que era o Boi de Lino, farei uma descrição de como ele era organizado e apresentação.

Imagem do boi de Lino

    O Bumba Meu Boi é um folguedo que representa a morte e a ressurreição de um boi através da dança e da música. Tem como principais personagens o boi e o vaqueiro. O boi, representado por uma estrutura de madeira, encoberta por tecido, no formato do corpo do animal, e paramentado com os chifres – naturais, retirado de um animal –, o rabo – também natural- e um chocalho. Por baixo dessa estrutura uma pessoa, em pé, a movimenta, como um boi vivo. O outro personagem é o vaqueiro, um homem vestido e paramentado de vaqueiro, que monta um cavalo de pau – daqueles dos tempos de criança – que é dotado de uma cabeça em miniatura, na qual é amarrada uma espécie de cabresto, também em miniatura, com o qual o vaqueiro simula as manobras, como se estivesse sobre um cavalo de verdade. Ele usa um ferrão. Durante a apresentação, boi e vaqueiro se movimentam fazendo evoluções, ao ritmo de uma música que é cantada por um coro de mulheres, com o acompanhamento de sanfona, bumba, gaita e palmas ritmadas.

    Na montagem feita por Lino, a morte e a ressurreição do boi são substituídas pelo “amuo” do boi. Então, ao invés de morrer e depois ressuscitar, o boi amua várias vezes.

    A apresentação começa com o boi e o vaqueiro fazendo evoluções. Em um determinado momento, o boi amua – com a estrutura/armação sendo colocada imóvel no chão, e o homem no seu interior, se agachando -; o vaqueiro, então, simula estar ferroando ao animal, até ele se levantar. Cena essa que ocorre várias vezes, sempre acompanhada por evoluções, e arremetidas do animal contra o vaqueiro e os assistentes, como querendo chifrá-los, atacá-los, no que há a intervenção do vaqueiro, se defendendo e protegendo as pessoas. Ao final, o boi e vaqueiro se entendem.

    O Boi de Lino era apresentado em dois períodos: nos festejos de Reis e nos juninos; em frente à residência de Lino, na Rua da Chácara, e à residência de quem “comprava o boi” – comprar o boi, significava contratar a apresentação do folguedo.

    Quando o Boi de Lino, “comprado”, chegava à residência do comprador, era cantada a música cuja letra segue abaixo:

Senhor dono da casa, deixa de tanto dormir

Venha ver o Reis do Boi, ele hoje vai sair

Ê boi! Ê boi!

Ê, boi, Ê boi, Ê boi

Senhor dono da casa, deixa de tanto dormir

Venha ver o Reis do Boi, ele hoje vai sai

 

     Durante as apresentações, era cantada a música cuja letra segue abaixo:

Boi preto, boi preto

Boi preto amuou

Rodeia o boi vaqueiro, que vou caçar comprador

Passo bonito é pavão

Tem pena para luxiar

Vou pentear meus cabelos

Até as morenas chegar

Boi preto, boi preto

Boi preto amuou

Rodeia o boi vaqueiro, que vou caçar comprado

 

     Ao final da apresentação – na casa do “comprador” ou na residência de Lino -, era cantada a música cuja letra segue abaixo:

Lá vem o terno desse boi e veja bem os nossos ideais

A brincadeira não se brinca sem martírio

Completa com braço, completa com braço forte

Depois dessa folia venha todos os carnavais

Imagem de Lindolfo Francisco de Miranda – Lino do boi  

    A apresentação tinha duração de mais ou menos uma hora, sendo, ao final, aplaudida e saudada com vivas pela plateia.

O Boi de Lino, que faz parte do patrimônio sociocultural do município, era um dos mais importantes eventos culturais de Correntina até por volta dos anos 1990, e um espetáculo que chamava a atenção da população correntinense. A cada apresentação, tinha um público “cativo”, que lotava ruas.

Uma equipe pequena, formada por alguns amigos de Lino, ajudava na preparação do espetáculo e na sua realização. Toda a estrutura era bem rústica. A armação de madeira do boi era feita por Zé do Véi, com varas retiradas na mata e, na sua montagem, amarradas com cipós. A cabeça do boi com os chifres, e o rabo eram obtidos com o açougueiro Gôda; a cobertura da estrutura, simulando o couro do animal era feita com tecido, de chita, que era comprado no comércio local. O cavalo de pau era também retirado da mata nativa, do pau pereira. O chocalho, a cabeça do cavalo, que era entalhada em barriguda e demais equipamentos como chicote, pertenciam ao próprio Lino. Denilson de dona Maria Vieira ficava embaixo da estrutura do boi, fazendo os movimentos. Dona Joana Coã e umas amigas – cujos nomes não são lembrados – formavam o coro que cantava as músicas.

Lei municipal que dispõem sobre a integração do Reis de boi como patrimônio municipal.
Imagem da lei que institui o dia do Boi de lino.

Durante cerca de cinco décadas, Lino, com o seu boi, fez a alegria de boa parte da população correntinense. Fazendo jus a um lugar de destaque na história da cultura e das tradições desta terra, como um benfeitor, alguém que teve um ideal e, sem receber nenhuma compensação financeira, deu por ele o melhor de si, fazendo a alegria de várias gerações, fortalecendo a cultura e as tradições correntinenses.

Lino faleceu em 13 agosto de 2001.

*Teonei de Araújo Guerra é jornalista provisionado, escritor e colaborador do Jornal de Correntina.

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