Publicado em 8/5/2026, às 15h15

Possui graduação em Filosofia pela PUC Goiás, graduação em Direito, Licenciatura em História, Curso Seminarístico de Filosofia pelo Instituto de Filosofia/teologia de Goiás, Curso livre em Teologia (1993), especialização em Filosofia Clínica, e mestrado em Ciências da Religião pela PUC Goiás. Ex- Professor efetivo da PUC Goiás, foi professor convidado do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás.

CORRENTINA E OS SEUS MÍSTICOS

Imagem ilustrativa.

Correntina já abrigou, em seu seio, figuras no mínimo curiosas, no campo da espiritualidade. Contam que elas possuíam poderes espirituais além das condições de estabelecer comunicação com Seres do Além. Espíritos e outras forças de poderes inimagináveis, donde emanavam forças indomáveis pelo homem, obedeciam aos seus comandos. Neste contexto, ganha destaque alguns nomes do universo destes místicos personagens, como: Seu Gôda de Maria, Florêncio de Cassiano, Domingo Cabaça, Justina Cega, Rosinha Cubú, Valerão de Dona Ana, Dona Sú de Miguel, Seu Silivestre, Quinca de Ritinha, Seu Marcelino, só para citar alguns…

Todos eles com poderes sobrenaturais, capazes de detectarem influências malignas, doenças espirituais, energias negativas, encosto e outras espécies de forças inomináveis. Diziam eles, que faziam tudo aquilo por meio de um dom divino. Era uma espécie de benção e de envio celestial. Encaravam aquilo como uma missão na terra, designada por uma força do alto, dádiva dos céus.

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As entidades eram as mais variadas possíveis e trabalhavam pelo bem dos bichos e dos humanos. Entretanto, diziam os mais curiosos e supersticiosos da época, que havia também aqueles que dedicavam-se a fazer tudo e toda espécie de mal e de atos prejudiciais à vida e aos afetos amorosos. Muitas pessoas da sociedade afirmavam testemunhar cenas horripilantes de pessoas, estrebuchando pelo chão, sob a alegação de “coisa feita.” Isto é, maldição, envio de forças poderosas negativas contra os seus desafetos.

Numa época de escassez de médicos e de outros profissionais da saúde, multiplicavam-se, em Correntina, figuras místicas com seus mistéricos saberes. Homens e mulheres, acreditando serem portadores de dons divinos, desenvolviam missão sagrada da cura e da proteção daqueles que buscavam os seus favores. No campo e na cidade, poder-se-ia encontrar estes seres, vocacionados à missão da cura e do aconselhamento. Através das histórias relatadas por antigos pacientes e pelo tipo de procura, parece que havia áreas de especializações entre esses profissionais da curandeiria.

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Sendo assim, quem sofria de espinhela caída, dirigia-se a seu Gôda de dona Maria, no Bairro do Ouro, atrás do antigo matadouro da cidade. O seu ritual era colocar o dedo indicador no diafragma do paciente, acompanhado de súplicas e de orações. Aqueles que buscavam o remédio contra dor de cabeça, contatavam Justina Cega, numa rua atrás do cemitério velho. Esta senhora colocava um litro transparente cheio de água sobre a cabeça do paciente, ao pino do meio dia. Em seguida ia rezando enquanto a água ia sumindo e a dor passando. Já, quem sofria de dor de dente, procurava os préstimos de Seu Domingo Cabaça, que operava a cura à base de uma planta denominada de tipi. O rito era baforar um cigarro feito das folhas da referida erva sagrada, acompanhado de benzeções: baforando e benzendo! As mães aflitas, que queriam espantar o quebrante e o mal olhado sobre seus filhos, recorriam aos dons de dona Sú de Seu Miguel, no alto do cemitério. Com a sua força espiritual, ela batia o ramo na criança balbuciando palavras, até o ramo verde murchar e o infante ficar livre da má energia. No alto do São Lázaro, ao lado do cruzeiro, residia Seu Valério de Ana, conhecido por Valerão. Este senhor costumava receber as pessoas que sofriam do mal de insônia. A sua receita era ferver três brotos de uma planta, denominada de “amor-ausente” e, depois, era só dar para o paciente beber em conta-gotas. “Era tiro e queda!”

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Além destes especialistas, havia, na Rua Félix de Araújo, a polivalente Rosinha Cubú. Esta rezava e benzia contra quase todos os males. Mas, era o Quínca de Ritinha, morador da Rua Góes Calmon, e Seu Marcelino, morador da rua da chácara, quem estabeleciam contato com os espíritos desencarnados, dizendo incorporarem seres de cura e de conselhos. Porém, aqueles que queriam proteger as propriedades rurais contra bichos peçonhentos, geralmente, procuravam o Senhor “Silivestre” da Baraúna, especialista em reza contra esses ataques. Silvestre costumava utilizar-se de finas correias do couro de boi. Benzia-as, e mandava o cliente amarrar na perna, além de rezar por todo o terreno, afugentando assim os peçonhentos.  Dessa forma, nada era capaz de ofender o bem aventurado. Por fim, outro personagem que dizia ter o domínio sobre forças da natureza, era o pacato morador do Manoel Mendes, Florêncio de Cassiano. Este era capaz de aplacar qualquer incêndio pela força de sua oração. Benzendo e exorcizando as chamas, estas não ultrapassavam os limites estabelecidos.

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Esses tais místicos eram conhecidos como rezadores e benzedores, detentores de mistérios e de dons sagrados. Acolhiam a todos, indistintamente. Ricos e pobres solicitavam os seus serviços quando estavam em apuros e necessitados da cura e dos aconselhamentos. Esse serviço sagrado tronou-se o braço auxiliar da medicina em Correntina; porque, “acima de Deus, ninguém!” Palavra, gestos e objetos naturais: eis a trilogia do rito da cura e do bem-estar. Com isso, esta gente dominava a ciência das ervas e a sabedoria das palavras.  Diziam compreender as vozes dos santos e as dores da humanidade. A propósito, quem são os seus herdeiros, hoje?

 

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