Publicado em 5/4/2026, às 15h15.

Thaise Cotrim – Graduada em Letras (UNASP), servidora pública federal, casada, cristã e colunista.
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VELÓRIO SEM DEFUNTO
Por Thaise Cotrim

Quem, neste ensaio chamado vida, nunca teve curiosidade de saber como seria a própria despedida?

Irmão Oliveira, morador de Sobral, tinha o sonho de organizar o próprio velório. Loucura? Nem tanto, presumo. Inesperado foi encontrar pessoas que comprassem a ideia.

Um conhecido dono de funerária cedeu o espaço e, sei lá como, num dia programado lá estava ele bem vestido como doutor de cidade pequena, roupa social, camisa branca e gravata preta, sendo carregado num caixão por amigos. Que amigos!

Teve violinista, espaço ornamentado e, na reportagem que vi, percebia-se a tentativa de um clima fúnebre. No entanto, ao abrirem o caixão, o suposto defunto entreabriu os olhos e esboçou um sorrisinho no canto da boca. Deu até entrevista. Assunta!

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Aquele Senhor provou a excentricidade do ser humano.  No mesmo vídeo, mas em outro dia, Oliveira contou que percebeu a presença de muitos amigos, se surpreendeu negativamente com a ausência de alguns e ficou impressionado ao encontrar pessoas que jamais imaginaria ali.

Nem sei como eu agiria num evento assim. Você já pensou? Talvez achasse engraçado. Totalmente oposto de um velório real. Sou intensa. Quando percebo um corpo inerte, penso nos sonhos que não se realizaram, nas conversas inacabadas, nos abraços agora impossíveis... Nesses momentos, lavo o rosto sem usar uma gota de água. Os pensamentos ruminantes tornam-se fonte quase inesgotável de lágrimas.

Participei de parte do culto fúnebre de minha avó Maria. Mas o sepultamento… este é sempre o mais doloroso.

O último adeus.
As últimas palavras.

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 Depois de emocionadas falas, acomodamos o lençol branco rendado. A janelinha foi fechada e cada gesto dos coveiros, cada movimento de terra jogada, parecia querer selar uma memória que insiste em permanecer viva.

Ela se foi, mas seu túmulo continua vivo, na cor verde.

 Seu Oliveira fez uma brincadeira. Minha avó precisoupartir de verdade e se foi contra nossa vontade. Descansou. E nós, curiosamente, participamos mais vezes do que imaginamos de velórios sem que exista, de fato, um cadáver.

Pessoas excluídas da roda, da mesa, do esquema, da consideração… vão sendo, aos poucos, asfixiadas pelo veneno silencioso da rejeição, que também pode ser uma cova rasa onde tentamos respirar enquanto o outro joga o esquecimento por cima.

Há pessoas que continuam vivas, mas foram enterradas no coração de alguém.

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Silêncios prolongados, distâncias sem perguntas nem respostas podem acelerar pensamentos e precipitar umsuicídio social.

Há dores que nos deixam em uma espécie de catalepsia emocional: por fora parece silêncio e ausência, mas, escondida em algum lugar do peito, a vida ainda respira, esperando a hora de voltar.

 Às vezes acontece, involuntariamente, uma espécie de exumação emocional.

A terra se abre outra vez e a dor respira de novo.

O desejo de validação, ou ao menos compreensão, não encontra lugar. A morfina do autocuidado pode perder seus efeitos. E assim, muitos relacionamentos vão sendo enterrados, sem ao menos uma despedida.

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 Não convém absolver todo mundo. É sabido que não existe autorresponsabilidade nula. Há quem acabe cavando a própria cova com escolhas equivocadas e maldades intencionais. Fazer o quê?

Ainda assim, é lamentável ver perdas antes do fim. Algumas despedidas acontecem sem caixão, sem flores e sem aviso. Relações que se desfazem pelo que se ouviu dizer, por um mal-entendido ou por uma simples má interpretação.

 O caixão da vida comporta dores, mas também amores. Carrega valores, histórias, favores. E, apesar de tudo, ainda encontra espaço para flores.

A morte, portanto, não pode ser o fim.

 No Calvário ela foi apenas o começo de uma esperança. O início de um evangelho.

Diante disso, se você eventualmente estiver se sentindo velado, assassinado ou cancelado, eu convidaria a visitar, ainda que em memória, o cemitério onde dona Maria de Souza Cruz foi sepultada.

Veja:
A terra que fecha um túmulo é a mesma que nutre a grama verde que nasce sobre ele.

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Além disso, lembre-se:

A fé cristã começou exatamente assim: quando todos pensavam estar diante de um fim, a vida ressurgiu do sepulcro.

No Calvário parecia morte.
No domingo, a esperança levantou-se.
Hoje, podemos crer no amanhã.

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Feliz vida. Feliz Páscoa!

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