Publicado em 5/4/2026, às 15h15.

COLA PRA QUÊ?
Em minha infância, vi sandálias havaianas, aquelas brancas com a cor do solado combinando com as correias, serem reparadas com pregos ou arames.
Na melhor das hipóteses, para que a caminhada não fosse interrompida com a saída do botão de borracha na parte frontal do chinelo, aproveitava-se uma correia sem uso, ainda que de cor diferente e: Voilà! Tínhamos um novo par que resistiria, no mínimo, a mesma quantidade de tempo que já havia durado.
Quem da minha geração nunca ouvira falar em durepoxi? A solda a frio na cor cinza era a solução perfeita para remendar cabos de panelas ou qualquer outro objeto cujo material fosse compatível com o produto milagroso.
Mais que beleza, o importante era a funcionalidade e, claro, a economia.
Hoje, as coisas mudaram lá na cidade grande. O lixo é um luxo e basta qualquer sinal de uso ou marca de tempo para que o descarte ou desapego seja efetivado.
Entretanto, no interior ainda existe um quê daquele meu passado, longe de miséria, mas de valorizar quando se é importante.
Como tenho tido mais tempo de introspecção, ao analisar minhas novas experiências e sentimentos, foi inevitável uma reflexão depois da situação que vivi e passarei a relatar a seguir:
Ganhei uma sandália como presente de aniversário ao completar meus 40 anos. Faz pouco tempo, viu? Amava meu calçado pretinho básico. Era bem confortável e toda vez que o colocava no pé degustava doces lembranças…
Mas, com o uso frequente, inevitavelmente, a sandália começou a demonstrar seu desgaste e a tal “boca de jacaré” surgiu depois que as esferas douradas perderam a cor que davam um certo charme ao envolver o meu tornozelo.
Um dia, na área da aconchegante casa de painho e mainha, abrindo o início de uma sola descolada, eu disse ao meu marido: Amor, preciso de um presente!
Antes que Roginho, meu esposo, respondesse que eu não sou centopeia e tenho muitos outros pares, o meu sogro, em tom grave e ritmo arrastado, disse:
– Ô Thaise, essa sandália nunca chegou nem na metade da vida dela.
Eu achei graça, e apesar de discordar dele e ter uma outra alternativa, mesmo naquelas condições, optei por usar o calçado de estima para ir a um singelo evento.
O previsível, embora não esperado, aconteceu. O solado abriu de vez. Uma tira que envolvia os dedos descolou e, de repente, lá estava eu com o pé no chão e o tornozelo preso pelo laço feito com a estreita fita de couro. O outro pé insistia em permanecer elegante, mas o caminhar capenga não permitiu tal façanha. Foi bem engraçado!
O melhor foi sentir tanto carinho das amigas que correram para dar um jeito de resolver meu problema. Jamais vou me esquecer da grande mobilização que fizeram por mim, bem como da solução dada.
Poderia dispensar por lá mesmo aquela que me deixou na mão, ou melhor, com pé no chão, mas parece que eu queria me despedir dela e coloquei-a numa sacola. Chegamos a casa e claro que não iria perder a oportunidade de evidenciar o quanto meu sogro estava equivocado sobre o prazo de vida útil de minha sandália, ao que ele ficou sem graça, mas de pronto disse: “Uai, tem cola pra quê? É só colar!”.
Ela foi um presente e esteve presente em inúmeros momentos da minha vida. Ela acompanhou lágrimas e sorrisos, saltos e tropeços, mas se desgastou. Por gostar tanto e ser minha preferência na composição dos looks, eu acreditei que me continuaria servindo, mas foi um engano. Não tinha escolha… Já deu né? Afinal, continuarmos juntas seria totalmente condenado pelos teóricos da prosperidade.
Não tive coragem de jogá-la no lixo, mas deixei-a ao lado da lixeira para que, no dia seguinte, ela seguisse seu inevitável destino: o descarte no fogo.
Poucos dias depois, minha sandália não estava mais onde eu havia deixado e tentei desencanar.
Eu tenho conhecido mais de perto um anjo que atende pelo nome de Elza, a quem ultimamente chamo de sogrinha. Não só por isso, mas foi muito emocionante para mim ver em suas mãos aquele par de sandálias novamente, mas, dessa vez, limpo e restaurado.
“Eu colei pra você”, disse ela, “ainda dá para usar mais uns dias”, completou.
Mal tive palavras, arregalei os olhos, agradeci e tive de ouvir meu sogro, outro anjo em minha vida, falando daquele jeitinho que só quem conhece sabe imitar:
– Eu não falei procê? Ela vai durá é muito ainda.
Não consigo exprimir bem a lição que aprendi naquele dia, mas sempre que uso novamente minha renovada sandália, ainda que com as esferas desbotadas e solado desgastado, eu peço a outro ser celestial, o Supremo, restaurar tudo que está meio descolado em minha vida.
Eu não sei se você está na metade dos seus dias, talvez se sinta desgastado, desprezado ou desnecessário em alguns contextos, mas, acredite, sempre haverá alguém que, conhecendo ou não a sua história, enxergará o seu valor e suas potencialidades.
Há quem possa colar as fissuras que marcaram seu coração e te deixaram tão exposto para te limpar e restaurar sua imagem.
Ainda que não volte a ser exatamente como antes, ficará surpreso com seu novo desempenho ao regressar à caminhada nessa instigante trilha chamada vida. Sem preocupações com as marcas externas, procure curas internas e fique em paz com a certeza do valor que você tem.
Por fim, a última lição: “Quando pensar em descartar algo que ainda carrega história e que tenha algum valor emocional… vale lembrar: tem cola pra quê?”

VELÓRIO SEM DEFUNTO
Por Thaise Cotrim
Quem, neste ensaio chamado vida, nunca teve curiosidade de saber como seria a própria despedida?
Irmão Oliveira, morador de Sobral, tinha o sonho de organizar o próprio velório. Loucura? Nem tanto, presumo. Inesperado foi encontrar pessoas que comprassem a ideia.
Um conhecido dono de funerária cedeu o espaço e, sei lá como, num dia programado lá estava ele bem vestido como doutor de cidade pequena, roupa social, camisa branca e gravata preta, sendo carregado num caixão por amigos. Que amigos!
Teve violinista, espaço ornamentado e, na reportagem que vi, percebia-se a tentativa de um clima fúnebre. No entanto, ao abrirem o caixão, o suposto defunto entreabriu os olhos e esboçou um sorrisinho no canto da boca. Deu até entrevista. Assunta!

Aquele Senhor provou a excentricidade do ser humano. No mesmo vídeo, mas em outro dia, Oliveira contou que percebeu a presença de muitos amigos, se surpreendeu negativamente com a ausência de alguns e ficou impressionado ao encontrar pessoas que jamais imaginaria ali.
Nem sei como eu agiria num evento assim. Você já pensou? Talvez achasse engraçado. Totalmente oposto de um velório real. Sou intensa. Quando percebo um corpo inerte, penso nos sonhos que não se realizaram, nas conversas inacabadas, nos abraços agora impossíveis... Nesses momentos, lavo o rosto sem usar uma gota de água. Os pensamentos ruminantes tornam-se fonte quase inesgotável de lágrimas.
Participei de parte do culto fúnebre de minha avó Maria. Mas o sepultamento… este é sempre o mais doloroso.
O último adeus.
As últimas palavras.

Depois de emocionadas falas, acomodamos o lençol branco rendado. A janelinha foi fechada e cada gesto dos coveiros, cada movimento de terra jogada, parecia querer selar uma memória que insiste em permanecer viva.
Ela se foi, mas seu túmulo continua vivo, na cor verde.
Seu Oliveira fez uma brincadeira. Minha avó precisou partir de verdade. Descansou. E nós, curiosamente, participamos mais vezes do que imaginamos de velórios sem que exista, de fato, um cadáver.
Pessoas excluídas da roda, da mesa, do esquema, da consideração… vão sendo, aos poucos, asfixiadas pelo veneno silencioso da rejeição, que também pode ser uma cova rasa onde tentamos respirar enquanto o outro joga o esquecimento por cima.
Há pessoas que continuam vivas, mas foram enterradas no coração de alguém.

Silêncios prolongados, distâncias sem perguntas nem respostas podem acelerar pensamentos e precipitar um “suicídio social”.
Há dores que nos deixam em uma espécie de catalepsia emocional: por fora parece silêncio e ausência, mas, escondida em algum lugar do peito, a vida ainda respira, esperando a hora de voltar.
Às vezes acontece, involuntariamente, uma exumação emocional.
A terra se abre outra vez e a dor respira de novo.
O desejo de validação, ou ao menos compreensão, não encontra lugar. A morfina do autocuidado pode perder seus efeitos. E assim, muitos relacionamentos vão sendo enterrados, sem ao menos uma despedida.

Não convém absolver todo mundo. É sabido que não existe autorresponsabilidade nula. Há quem acabe cavando a própria cova com escolhas equivocadas e maldades intencionais. Fazer o quê?
Ainda assim, é lamentável ver perdas antes do fim. Algumas despedidas acontecem sem caixão, sem flores e sem aviso. Relações que se desfazem pelo que se ouviu dizer, por um mal-entendido ou por uma simples má interpretação.
O caixão da vida comporta dores, mas também amores. Carrega valores, histórias, favores. E, apesar de tudo, ainda encontra espaço para flores.
A morte, portanto, não pode ser o fim.
No Calvário ela foi apenas o começo de uma esperança. O início de um evangelho.
Diante disso, se você eventualmente estiver se sentindo velado, assassinado ou cancelado, eu convidaria a visitar, ainda que em memória, o cemitério onde dona Maria de Souza Cruz foi sepultada.
Veja:
A terra que fecha um túmulo é a mesma que nutre a grama verde que nasce sobre ele.

Além disso, lembre-se:
A fé cristã começou exatamente assim: quando todos pensavam estar diante de um fim, a vida ressurgiu do sepulcro.
No Calvário parecia morte.
No domingo, a esperança levantou-se.
Hoje, podemos crer no amanhã.

Feliz vida. Feliz Páscoa!






Sábias palavras! A dor do “cancelamento” parece adormecida no dia a dia, mas a fé nos faz perceber que na maioria das vezes ela está onde deveria estar. A tristeza de ser velado em vida muitas vezes pode se transformar em um afago de nosso Pai Celestial ao percebermos que essa “morte” nos livra de dias infelizes, e nos faz voltar o olhar ao que realmente importa.