Publicado em 02/04/2025 às 09h01
PEDRO, O FERREIRO.
por Antonio Rocha.

Prezados leitora e leitor, o personagem destacado no presente ensaio é o inesquecível correntinense Pedro, o Ferreiro, em sua extraordinária arte de malhar o ferro, por meio do qual ganhava a vida. Utilizando fogo e água, ele, além de garantir o sustento da família, angariou fama, honra e a admiração de seus concidadãos. Sob a combinação de calor e vento o fole comia, assoprando as brasas da fornalha incandescente, que precipitavam gotas de suor do bravo Pedro. Lingüetas de fogo subiam enquanto o Ferreiro, revezando os óculos, malhava o ferro na bigorna e imprimia forma ao resistente metal.
Exato ali, quase no começo da Rua Félix de Araújo, no declive da ladeira do rio, precisamente na esquina de um terreno esguio e íngreme, calcado de pedras jacaré subjacente por ali. Então, foi naquele lugar que Pedro achou de montar a sua oficina de fundição. Naquela casa fazia-se de um tudo, desde chaves, dobradiças, ferrolhos, travas para cancelas, ferro de marcar gado e outros artifícios úteis.

Eu descreveria Pedro Ferreira como um homem fisicamente forte, musculoso, cabelos pretos lisos, bastante comunicativo e atencioso. Eu ainda menino, o conheci cuidando de sua extensa prole. Com o humor que lhe era característico, invocava a própria e incontestável autoridade, extremamente centrado no que fazia. Quantas vezes o vi malhando o ferro, tocando o fole para alimentar o fogo na fornalha, cujo combustível era a carvoeira. A despeito do desgastante trabalho, ele não perdia a toada da prosa desenvolvida com quem lhe flertava na oficina. Era um homem de múltiplas funções e afazeres.

Desse modo, quando se esperava encontrar Pedro na oficina, ele já estava a caminho da roça, para onde ia apartar o gado na fazenda da Lagoa da Zumba. Quando o sol apontava no horizonte, Pedro já estava em casa com o leite fresco, ordenhado das vacas que dormiram “encurraladas.” E, para variar, nos grandes festejos, tanto civis como religiosos, lá estava o músico Pedro Ferreira, tocando o seu pistão ou seu trombone de vara. Vendo aquilo, eu me perguntava: como seria possível um só homem dar conta de tantas coisas? Mas tratava-se de homem habilidoso, de muitos talentos, versátil e com expertise para inúmeros empreendimentos.

Apesar do seu sucesso material, em sua alma repousavam outros elevados valores. Pedro era extraordinariamente honesto, pai de família exemplar, atencioso e trabalhador, agregador por natureza. A sua oficina tornou-se uma referência, passando ser ostensivamente frequentada. Muita gente a procurava para encomendar peças ou, simplesmente, para arrancar uns dedos de prosa com o Ferreiro. O homem foi investido no papel de conselheiro, antes mesmo do surgimento dos gurus da auto-ajuda. Ele parecia um Hercules, com seus grandes músculos portentosos, malhando com um pesado martelo o ferro bruto que saia da fornalha incandescente, que posteriormente viraria obras de arte.
A única coisa que tirava Pedro Ferreiro do sério era algum gaiato ousar colher limão na sua frente, enquanto estivesse a tocar o seu trombone de vara. Aí ele saía do prumo. Isto porque a boca enchia d’água e ia escorrendo, desde a embocadura até a boca do instrumento. Quanto mais o gatuno chupava o limão, mas seu Pedro tinha dificuldade de soprar. De fato, numa situação assim, jamais músico algum consegue produzir qualquer som. Grande Pedro Ferreiro. Quanta saudade…!!!

Que matéria boa de lê.
Senhor Antônio Rocha, sempre traz história na nossa cidade, relembrando nossas raízes e profissões.
Que texto maravilhoso! O articulista Antônio Rocha nos presenteia com uma descrição vibrante e emocionante da vida de Pedro, o Ferreiro, um verdadeiro personagem da cidade de Correntina-BA.
A forma como o autor descreve a oficina de Pedro, o som do martelo batendo no ferro, o cheiro da carvoeira, é simplesmente fascinante. Você quase pode sentir o calor da fornalha e ouvir o som do trombone de vara o do Piston/Pistão/Trumpete.
Mas o que mais me impressionou foi a forma como o autor captura a essência de Pedro, o Ferreiro. Ele não é apenas um personagem, mas um símbolo de trabalho duro, honestidade e dedicação. A forma como o autor descreve a relação de Pedro com a comunidade, como um conselheiro e um líder, é verdadeiramente inspiradora.
O texto também é uma homenagem à cidade de Correntina-BA e à sua história. O autor nos leva em uma jornada pelo tempo, mostrando-nos a importância da preservação da memória e da cultura local. Há pouco tempo, s.m.j. o articulista falou sobre Liozírio Ferreira, irmão de Pedro, também grande homem e integrante da retreta com seu inoxidável saxsofone, a arte da música nos Ferreiras é nato, pois o filho de Pedro de nome Romeu o substitui nessa mesma Banda de Música e também com o mesmo instrumento. Hoje, todos estão no descanço eterno ao lado do PAI MAIOR.
Em resumo, o texto de Antônio Rocha é uma obra-prima. É uma leitura obrigatória para qualquer um que se interesse pela história, pela cultura e pelas pessoas. Parabéns ao autor por essa contribuição valiosa!
Quantas saudades do meu grande e inesquecível avô Pedro Ferreira!
Só mesmo um forte e terno abraço, pois não tenho palavras para agradecer a esse menino, Antonio Rocha, por esta sua maravilhosa atividade arqueológica no sitio das familias tradicionais de Correntina.
Desta feita Ele escava o passado no sítio dos Ferreiras e nos trás a tona a ilustre figura do velho Pedro Ferreira, que além de todas qualidades por ele descrita, tem uma que descrevo no livro, em conclusão, Vestígios de Saudade, que não poderia, em parte, deixar de adiantar.
A admiração que nós, meninos da época, tinhamos por Seo Pedro Ferreira, irmão de Seo Liozirio, ambos musicos da Filarmonica Héraclito Correntinense, regida pelo eterne mestre Nemésio Galhardo.
Tem uma frase no diario do Tio, Dr. Lauro Joaquim, que levo comigo e é motivo, também desta minha insistencia em buscar manter vivo o nosso passado; abrindo suas cortinas diante do presente: “- Será se os Jovens de amanhã se interessarão saber quem fomos e qual é a sua história?” Sim Tio, temos vários neste perfil,, entre eles o Jornal de Correntina nos revelou um jovem arqueológico que vive removendo nosso passado em busca de nossos tesouros culturais e tem trazido aos nossos dias, grandes personalidades de nossa história.
Como é do conhecimento da geração dos idos anos 60/70; quando os meninos de então não tiveram a seu favor a industria do divetimento e nós tinham que usar de nossa imaginação para criar muitos de nossos brinquedos, como brincar, tipo: A cavalhada em cavalos-de-pau, os carinhos de madeiras, barrigudas para descambar o rio.. bola de gudes, bolas de meias, tantas… tantas mas a Filarmônica de Tabocas tinha sua temporada anual de acontecer; geralmente após as festas do Divino, Rosário, ou outros festejos que fazia a “furiosa” sair as ruas, nos emocionando com seus velhos e eternos dobrados. Apos os festejos do Divino e Rosário era certa a saída da Filarmonica de Tabocas, tocandos dobrados na base do tum.. tum… tum… graves e agudos. Cada menino escolhia um instrumento para imitar com sua taboca enfiada na boca. Os mais concorridos era o TUBA de Geraldo Corujão, os pratos do Velho Xixico e o trompete de vara do Velho Pedro Fereira
…
A filarmônica da cidade exercia grande influência na meninada, que de tanto fascínio, logo após a saída desta em um evento pelas ruas da cidade, surgir a Filarmônica de tabocas, por vezes regida por Alberto de Neno, composta de todos os instrumentos de que compunha a Filarmônica Heráclito, regida pelo mestre Nemésio.
Tudo era valido como instrumento, desde tampas panelas, tabocas e pedaços de cabo de vassouras. Munidos de uma farta imaginação, lá íamos nós, em nossos cortejos, fosse o Divino ou Rosários, sem imagens e sem andor, tocando na vase do num tum… tum…, buscando ao máximo assemelhar seu tum…tum…tum… ao instrumento supostamente verdadeiro, enfiado na boca. O endereço certo era a casa de Seo João Diamantino, aquele bichão de sorte que tanto valorizava as artes e artimanhas da meninada.!
Seo João Diamantino, ou Bichão de Sorte, outro sitio a ser pesquisado Antonio.
Bichão de Sorte era como Seo João se referia ao moleque a quem fazia um agrado, ou o surpreendia afanando em seu roçado; dizia: ”cai n´agua bichão de sorte”, e não lhe dava um tiro de sal, como se dizia que outros donos de roçado fazia com os ladroes de milho e melancia… no roçado de Seo João ele saía ileso, porém de mãos vazias, mas perdoado, sendo convidado a “cai n´água bichão de sorte!.
Na filarmônica de taboca nenhum menino era ele mesmo. Cada um queria ser o músico oficial do instrumento que ele simulava, e aí era um alvoroço, a banda atravessava e atravessava no meio do dobrado. Multiplicavam-se os Geraldos Corujões e seu tubão; os Liozirios e Quenos, Valdos de Porfírio e Seo Helio, na família dos sax´s; as clarinetes de Seo Iôzinho, Canô e Tonho de Rafael… e briga mesmo se dava entre os tantos que queriam tocar o trompete de Seo Pedro Ferreira ou os pratos de cobre do velho Xixico; cnflitos amenizados, pelo maestro Alberto de Neno, a banda saía as ruas rumo a casa de Seo Pedro Guerra, mas com parada obrigatória na casa de Seo João Diamantino, onde eram recebidos com foguetes, com Flora e Dona Sinha, com jarra de QSuco e bandejas de bolachas… Vivas, foguetes e a volta para casa felizes da vida.
O tempo passou, mas cá dentro do peito dessa nossa geração, a certeza de que fomos meninos felizes pela infancia que vivemos; longe desta era eletrônica e inteligencia artificial. Douradas décadas de 60, 70… jogando pião, bolas de gude no jogo de top; rodas e guiadores, carrinhos de pau, peladas com bola de meia e pano, sem nos esquecermos da rivalidade ferrenha entre os meninos e rapazes da rua de cima (Rua da fusada) e rua de baixo que discutiam pelo que uma tinha e a outra não!
…
Continue neste caminho Antonio, tens minha admiração e apreço. Ainda temos muitas histórias a ser contadas, o que nos falta são jovens como você, Helverton, Teoney, Caetano, Zacarias, com paciência e amor a nossa cultura, nessa escavação de nossos sítios arqueologicos; cada fragmento, É uma grande história.
Aguardem, Vestígios de Saudade, mais de vinte poetas correntinenses nos conta, em versos e relatos, suas estórias em nossa história. Faço-lhe o convite, publico, quem sabe nãonos honre com sua presença.
FanacoS
Meus parabéns a vc Antônio pela dedicação aos vultos históricos de nossa correntina. Atitudes qual a essa não deixa que esses grandes nomes caiam no esquecimento. Está sendo um privilégio seguir este periódico, JC feitos por tão habilidosos colaboradores.
Mais adiante vcs conheceram outro importantes momento na vida deste personagem. Pedro Ferreira com seu trompete de vara, na imortal Filarmônica de Tabocas, cujos meninos integrantes, tinha no Velho Pedro grande admiração e apreço.
Fiz um comentário mais detalhado, mas deve ter excedido limite textual.
Um forte abraço Antônio.
Caro Aécio Moreira!
Grato pela sua simpatia e pelo seu interesse em ler e comentar as minhas matérias, e, tantas outras publicações neste Jornal de Correntina. Socializar a participação de todos (as) neste espaço do JC é, deveras, salutar e desejável. Todos nós ganhamos… muito obrigado!
Impoluto Colunista, Getúlio Reis!
É um privilégio merecer do nobre colega, impecável texto como este… o seu…! Que, além de demonstrar cuidado, zelo e elevado senso estético, demonstra também sensibilidade aguçada e alta capacidade interpretativa, capaz de transcender e ampliar para melhor, o que foi posto pelo emissor. O seu texto é de uma beleza ímpar. Digo, não apenas pelos elogios, mas pelo seu estilo rebuscado, formal e elegante de escrever e descrever. Grato ! Os parabéns são para você, Capitão!
É impossível mantermo-nos indiferentes à bela, viva, fecunda e impecável prosa de Antônio Rocha de Souza, o mais autêntico e ilustre intelectual de sua terra natal, filho do campesinato e do proletariado correntinense, que como Hércules venceu todos os desafios que lhe foram, e são impostos, a todos os de origem humilde, superando todos os de famílias privilegiadas de Correntina-BA, tornado-se filósofo, teólogo, Bacharel em Direito e professor universitário que levou, tal qual Clodomir Santos de Morais, de forma honrosa, o nome de Correntina-BA à Europa, especialmente, à Alemanha, berço dos maiores representantes das mais diversas áreas do conhecimento, como Alexander von Humboldt, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Karl Marx, Bertolt Brecht, Leopold von Ranke, Friedrich Nietzsche, Walter Benjamin, Theodor Adorno, Jürgen Habermas, Max Weber, Albert Einstein, Jörn Rüsen dentre tantos outros. Parabéns a você querido Tonhêra, por, com tanto talento, realizar o mais importante trabalho nestes tempos tão nefastos: a recuperação da memória histórico-social, definido magistralmente pelo historiador francês, Peter Burke: “a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”. Pois, um povo sem memória é um povo sem futuro. Muito obrigado por compartilhar conosco as pérolas de sua maravilhosa prosa, Tonhêra!
Meu caro escritor Flamarion Costa!
É fato que, as suas belas e generosas palavras, soam para mim como apoio e incentvo.
Assim como você, caríssimo, também busco o resgate da memória dos que, sem dúvida, ajudaram a construir o nosso passado; a nossa história. Apesar do ilustre escritor, gentilmente, me chamar de jovem, já não o sou mais… pois, carrego sobre nos ombros muitos janeiros, embora tenha buscado sempre o vigor da juventude, para contnuar a envidar esforços na direção dos objetivos.
Tive o privilégio, Flamarion, de ser contemporâneo de Hélverton Valnir, Welson Moreira e de outros velhos amigos e conhecidos seus…
Sobre a sua ilustre pessoa, confesso que há muito sei do amor que nutre pela nossa querida terra. Tenho notícias e já li fragmentos de algumas obras suas. Nelas, você presta uma inestimável e qualificada contribuição, para o resgate da memória da construção social e histórica de Correntina. Gratidão a você, douto Flamarion!
Meu ilustre professor poeta, escritor, tradutor e historiador, Paulo Oisiovici.
A você, toda a vênia…! Nós nos conhecemos de longa data e de velha e longa estrada, nos grandes embates, na defesa do direito e da dignidade dos campesinos. Duros tempos aqueles… E você, sempre guerreiro e destemido, lúcido e consciente, nos abria caminhos para que pudéssemos seguir adiante, na conquista de direitos e garantias. Intelectual é você, na verdadeira acepção da palavra ou, como no dizer de Gramsci: verdadeiro “Intelectual orgânico” fermentando as massas. Você, é que merece todos os adjetivos usados sobre a minha pessoa. De minha parte, sou exatamente o que você diz: um “filho de camponês “, gestado e nascido no meio do mato. Confesso que gostei enormemente da referência…!
É uma honra e prestígio merecer do amigo, tão belo e tão caro comentário, expresso nas linhas do seu texto. Sei bem que você cometeu excessos na dosagem de “bem querer” e apreciação da minha pessoa. Por outro lado, sei que isto é próprio de quem é amigo e companheiro. Por tudo isso, digo, apenas…gratidão a você, Paulo…!