O homem do “corpo fechado” de Correntina

Foto: Major Félix.

Teoney Araújo Guerra

A versão recente de Renascer, novela em exibição na Rede Globo de Televisão, traz novamente à audiência um pouco do misticismo religioso existente em muitos de nós, brasileiros, e que é parte da nossa cultura.

Refiro-me ao personagem José Inocêncio, que é considerado “de corpo fechado”. Ou seja, detém poderes especiais, paranormais, que o livram das tocaias, e o tornam inatingível pelas balas dos seus inimigos.

A memória do nosso município registra a existência desse lado místico na vida local, desde quando Correntina ainda era vila. E foi, inclusive, contado no livro História de Correntina*, de autoria do jornalista, escritor e nosso historiador, Hélverton Baiano, mais conhecido por nós, como Valnir de Vercim.

Foto: Escrito Hélverton Baiano.

De acordo com o que tem sido transmitido através de gerações e está registrado no livro, o meu avô, o Major Félix – falecido, de morte natural, em 1974 -, foi o homem de “corpo fechado” de Correntina. Muito se falou dessa sua “proteção espiritual”, em histórias, ou seriam estórias, que remontam da década de 1920, e segundo o que se sabe, o Major teria saído ileso de tocaias contra ele armadas. Diversos relatos são contados até hoje pelas pessoas mais antigas da cidade.

Foto: Correntina/BA

De toda essa história, pelo menos os inimigos eram reais: O Coronel Juvenal Magalhães, seus descendentes e seguidores. É importante esclarecer aqui, que Juvenal tinha um irmão, também Coronel, o Arthur Magalhães, e que os dois eram inimigos: cada um liderava um grupo político – Juvenal, os Peba e Arthur, os Rabo Mole. O Major Félix fazia parte do grupo do então Intendente – o cargo de prefeito da época -, Arthur, que faleceu em 1923. Com a vacância do cargo, um imbróglio complexo, que não é possível tentar esclarecer aqui e durou três anos, se deu, com ambos os grupos políticos disputando o poder. Imbróglio que findou em 1926, com o Major Félix assumindo a Intendência Municipal. Essa assunção do Major, que se deu após os devidos e necessários conchavos feitos com o governo estadual, e passou a ser chamada de “Revolução de Major Félix”, foi a causa do ódio que Juvenal, seus parentes e seguidores passaram a ter contra o Major Félix.

É uma história muito longa e complexa, que não é possível contar nesta curta narrativa histórica.

Dos relatos que sobrevivem na memória de Correntina, sobre as tocaias e tiros disparados contra o Major, mas que não o vitimaram, um, em especial, é contado no livro de Valnir. Relato-o com as “minhas palavras”.

Foto: Vapor em Bom Jesus da Lapa/BA

Durante uma viagem do Major Félix e um acompanhante para a Barra de São José**, onde ele embarcaria num vapor, a caminho de Salvador, o Major e o companheiro – homem de sua confiança -, montados em cavalos, teriam sido perseguidos por capangas de Pedro Babau, um inimigo. Antes da saída para a viagem, o Major teria recebido e repassado ao companheiro uma espécie de alerta espiritual que recebera e pelo qual fora avisado que um atentado ocorreria, mas não os vitimaria, desde que não olhassem para trás. Durante o percurso, o alerta teria se confirmado, os dois foram seguidos e atacados. O companheiro não teria resistido à curiosidade e olhado para trás, sendo atingido por um tiro mortal. Contam do episódio, que as balas disparadas pelos perseguidores atingiam o corpo do Major mas não o feriam, como se o seu corpo fosse protegido por alguma proteção invisível.

Foto: Major Félix,, sentado a esquerda.

O Major Félix, cujo nome é Félix Joaquim de Araújo, foi Intendente da Vila e depois do Município, até 1930, quando o cargo foi extinto e substituído pelo de Prefeito. Naquele ano, o Major Félix foi eleito Prefeito em eleições diretas, e governou Correntina – com pequenos interregnos – até 1947. O Major Félix foi, portanto, o último Intendente e o primeiro Prefeito de Correntina.

Foto: Major Félix.

Félix nasceu no dia 2 de novembro de 1880, e faleceu no dia 6 janeiro de 1974. Neste mês de janeiro, portanto, faz 50 anos da morte do meu avô.

*Publicação que data de 1996, e que em 2006 teve uma segunda edição atualizada.
** Porto então existente mais ou menos no encontro do Rio Correntina com o Rio Corrente.

1 COMENTÁRIO

  1. Hélverton Baiano historiador? 🤣 A profissão de Historiador foi regulamentada pelo Senado. Bolsonaro vetou mas o Congresso derrubou o veto. O livro possui uma informação truncada sobre um documento citado. A ciência da História tem uma metodologia própria. O livro “História de Correntina” que não estabelece o recorte temporal, restringe-se a uma apologia a algumas famílias tradicionais de Correntina e realizar uma visão de escárnio das características de pessoas doentes e miseráveis dissimulada por uma perspectiva pitoresca. As contribuições e o papel histórico dos trabalhadores e de comunidades pobres são omitidas. A verdadeira obra historiográfica sobre Correntina com rigor científico é “O Homem no Vale do São Francisco” do antropólogo norte-americano Donald Pearson publicada em 1955. Há ainda alguns textos do sociólogo pela Universidade de Rostock na Alemanha, PhD Clodomir Santos de Morais que foi assessor da ONU.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.