Publicado em 9/4/2026, às 6h15

Antonio Rocha.
Possui graduação em Filosofia pela PUC Goiás, graduação em Direito, Licenciatura em História, Curso Seminarístico de Filosofia pelo Instituto de Filosofia/teologia de Goiás, Curso livre em Teologia (1993), especialização em Filosofia Clínica, e mestrado em Ciências da Religião pela PUC Goiás. Ex- Professor efetivo da PUC Goiás, foi professor convidado do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás.
Imagem ilustrativa.

GREGÓRIO DO MATO
Por Antonio Rocha.

Originário dos grotões do Barreiro, município de Correntina, Gregório era um irrequieto ser das brenhas do mato que andava com um machado às costas e um pensamento nas nuvens, comunicando-se com entes de um mundo desconhecido. Andava estrada a fora, sempre falando a esmo e sozinho, ou melhor, falando consigo mesmo ou com outros seres de um mundo invisível.

Ao estilo de ambulantes, percorria longos trechos no sertão. Mas, à época, já tinha a sua cativa freguesia de consumidores do seu nobre trabalho, pois o distinto era lenhador. Lidar com lenha foi sua primeira profissão, após ser acometido de aparente deficiência mental. Andava pelos gerais coletando madeiras que, cuidadosamente, ele as organizava em feixes de lenha para, em seguida, trocá-los por apenas uma cordinha de fumo em rolo, e um copo de café com cuscuz. Assim que o negócio era concretizado, Gregório partia para rumos incertos.

Imagem ilustrativa.

Sabe-se que este ser errante fazia pouca parada na própria casa, pois habituou-se a peregrinar por destinos aleatórios, obedecendo as vozes do além. Certamente submetia-se ao imperativo do acaso, desiludido no amor e na paixão, motivo pelo qual atirou-se no mundo dos anônimos, dos perturbados, dos largados e ignorados. Se, por um lado, o nosso personagem gozava de uma liberdade sem limites, por outro, pagava com o sofrimento da exposição ao sol inclemente do sertão e à gélida chuva de verão.

Frequentemente chegava encharcado como pipa, água escorrendo em volumes e trêmulo de frio, à alguma casa da vizinhança. Geralmente seu estado comovia o morador que, sensibilizado, lhe dispensava ajuda e afeto. Posteriormente, o peregrino dava sequência à peregrinação. Desta forma, Gregório percorria os limites do mundo que lhe era possível: Brejinho, Barreiro sua terra de origem, Cerco, Manoel Mendes, Baraúna e tal, até retornar ao seu lar e descansar deitado num banco duro de madeira, na sala de sua casa. O nosso andarilho era de pouca conversa, mas com quem lhe agradasse, prolongava-se na prosa.

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Ele foi um ser humano que, embora transtornado mentalmente, sabia bem cuidar das pessoas, principalmente de mulheres e crianças em perigo. Por causa desta sensibilidade, algumas vezes previu situação de riscos para as mulheres, sobremaneira as que diariamente ficavam sozinhas com os filhos.

Conta-se que, certa vez, chegando à Cabeceira do Brejinho e prevendo um risco iminente, Gregório arrancou às pressas uma senhora e uma criança pequena e partiu em fuga. O viandante, então, as conduziu até uma família que residia há quilômetros de distância, comportando-se como verdadeira segurança pessoal das indefesas. Enquanto caminhavam, Gregório ia balbuciando palavras inaudíveis, como que a conversar com os guardiões do universo. 11/01/25 ARS

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