Publicado em 25/2/2026, às 18h27.

Antonio Rocha.
Possui graduação em Filosofia pela PUC Goiás, graduação em Direito, Licenciatura em História, Curso Seminarístico de Filosofia pelo Instituto de Filosofia/teologia de Goiás, Curso livre em Teologia (1993), especialização em Filosofia Clínica, e mestrado em Ciências da Religião pela PUC Goiás. Ex- Professor efetivo da PUC Goiás, foi professor convidado do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás.
ZÉ PATRICIO, O MESTRE DOS MENINOS DA CORRENTINA DOS ANOS 70
Por Antonio Rocha

Em toda e qualquer comunidade humana há pessoas que destacam-se mais do que outras e, devido a uma conjunção de fatores, tornam-se inesquecíveis. O personagem que o presente texto traz à memória, figura-se como um, entre os muitos, dos quais Correntina jamais pode esquecer. Há de cuidar-se para que o tempo não sepulte, na vala do esquecimento, nenhum daqueles que sinalizaram corações.

Foto divulgação.

Transcorria-se a década de 1970, período em que ele apareceu! Com seu estilo eloquente, professoral e musical, dessa forma Patrício inseriu-se entre nós, conquistando a confiança e a amizade dos correntinenses. Tudo leva crer que a inspiração deste talentoso ser humano foi o bem-aventurado Padre André, responsável pela sua transferência de Carinhanha-Ba para Correntina, onde radicou-secom a família. Ali estabeleceu-se e, desde então, graças à sua intuitiva sabedoria, passou a auxiliar a juventude local. Tratava-se de um senhor polivalente e de capacidades, razão pela qual desenvolvia variadas funções em prol da educação juvenil. Sua inquestionável performance consubstanciou-se na animação litúrgica, por ocasião das missas dominicais da Paróquia, bem como na exímia atividade de marceneiro e de carpinteiro.

A Serraria funcionava às margens do Rio Correntina, exatamente, no antigo leito, outrora desviado em decorrência da sanha pelo ouro. O habilidoso e recém-chegado Honorato Ribeiro dos Santos, conhecido por Zé Patrício, imediatamente, deu início à administração que imprimiu novos rumos aos empreendimentos do vigário, enquanto ministrava aulas aos mancebos aprendizes de carpintaria e de marcenaria. Homem distinto e de fina educação, destacava-se pelo rigor e alto nível de exigência perante seus alunos, tanto que antes das aulas práticas costumava testar, previamente, os conhecimentos deles, por meio de exercícios sobre conceitos e teorias.

Foto de Zé Patrício com seus familiares.

Nesse sentido, a exemplo de Sócrates, começava interrogando o iniciante, perguntando-lhe:o que é isso? O tal respondia, é um “martel”, ao que o professor Patrício corrigia: é um martelo, (mar-te-lo)! Prosseguindo, indagava: o que é isso? Isto é uma taba, respondia o arguido, imediatamente.Reparado por Patrício, logo esclarecia: sim, isto é uma tábua (tá-bua). Obviamente, Zé Patrício dominava o idioma pátrio, já que era professor de português, além de fluente em latim e em Francês. Suas habilidades não paravam por aí, pois desenvolvia a atividade de excelente músico, leitor de partituras, violonista, contrabaixista, tocador de órgão de fole e de outros instrumentos musicais.

A propósito, recordo-me de Zé Patrício integrando bandas, tocando animadas festas na companhia da juventude. Enquanto a maioria dos músicos tocava baseado no “de ouvido”, Patrício dividia compasso, ensinava solfejo, executava partituras e marcava as divisões musicais.  Verdadeira referência para mocidade da cidade, o nosso mestre foi também um admirável orador, de reserva moral irretocável e de rigor estético inigualável. Sempre foi um nobre, um gênio de vida ilibada, padrão de homem justo, de cidadão de fé e pai de família exemplar.

Foto divulgação.

Finalmente, não se sabe por qual razão o Senhor José Patrício, discretamente, desapareceu, impondo grande perda à cidade! Evidentemente, no palco da vida, todas as cenas se fazem e se desfazem.  Antes de o Monsenhor subir ao céu, Zé quis retornar à sua terra. Quanto aos meninos estudantes, dispersaram-se mundo a fora, plantando saberes em outras plagas. Francamente, ainda sinto saudades do nosso Patrício, principalmente, quando pego-me a imaginar o vaivém da serra, o barulho do serrote, o toc-toc do martelo, o som do órgão de fole na igreja, e o soletrar das silabas em latim. Mas, como tudo tem o seu ocaso, assim termina a exposição sobre o inesquecível Patrício.

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