Publicado em 29/3/2026, às 19h19.

*Teonei Guerra é Jornalista Provisionado e Corretor de Imóveis.

Correntina: 88 anos de emancipação e desenvolvimento.

Foto divulgação.

Uma retrospectiva econômica do município, nessas mais de oito décadas de emancipado.
Teonei de Araújo Guerra

Ao celebrar os 88 anos de emancipação político-administrativa, nesta segunda-feira, dia 30 de março, Correntina ocupa o 19º lugar entre os 417 municípios baianos pelo seu Produto Interno Bruto (PIB) Per Capta – por pessoa – que é de R$ 117.274,03. Sua receita própria anual é de R$ 57,2 milhões e, somada às transferências do Estado e da União totaliza 263, 3 milhões*.

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Não há um ranking dos municípios mais importantes economicamente no nosso estado, mas Correntina certamente está, pelo menos, entre os top 40.

Essa situação econômica privilegiada teve início a partir do final da década de 1970, quando a porção oeste do território do município, onde predomina o bioma cerrado – popularmente denominado de Gerais -, então inóspito e improdutivo, passou a ser ocupado, com a implantação de grandes propriedades rurais, hoje denominadas de “agronegócio”, com culturas de soja, milho e algodão. Hoje, outras culturas e a pecuária aumentaram a pauta da produção local.

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Também nos anos 1970 – ainda no início -, foram implantados pelo poder público municipal os equipamentos lazer e recreação denominados de Ranchão e Sete Ilhas, que vocacionaram a cidade para o turismo. Tornando Correntina um polo turístico em desenvolvimento, com potencial para vir a se destacar no contexto estadual em razão dos rios – cinco rios banham o município –, cujas águas cristalinas, com suas cachoeiras, corredeiras, ilhas e arquipélagos oferecem aos visitantes o banho recreativo, passeios de ecoturismo, a prática de esportes como o boia-cross e o caiaque ou simplesmente o turismo contemplativo.

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Antes, a cidade havia tido um breve período de desenvolvimento entre o finalzinho dos anos 1950 e o início da década de 1960, durante a construção do Complexo Hidrelétrico Formoso Corrente, mais conhecido como a Barragem.

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A implantação das grandes empresas do agronegócio, vindas de diversas regiões do país em especial, do sul e sudeste, gerou um ciclo econômico e de desenvolvimento que influenciou todo o município; desde a cidade, aos rincões mais distantes, especialmente o pequeno povoado do Posto Rosário, que, pela sua localização, bem próximo de onde se instalaram as grandes empresas, se desenvolveu num ritmo intenso.

Atividades como o comércio e os serviços se diversificaram, com a chegada de empresários, empresas, profissionais liberais e trabalhadores, o que resultou também no aumento da população – hoje de 32.459 habitantes – e na expansão urbana da sede do município, fortalecendo assim outro setor da economia local, o da construção civil. O próprio turismo, que tem atuado como coadjuvante nesse processo de desenvolvimento, se retroalimentou com esse desenvolvimento, crescendo em importância econômica.

O desenvolvimento pôs mais dinheiro na economia local, fortalecendo a arrecadação própria do Município, que cresceu exponencialmente, tendo como carro-chefe os tributos e taxas arrecadados com os negócios envolvendo as grandes propriedades rurais e a implantação das empresas do agronegócio.

Foto do AgroRosário

Data desse período, o desmembramento de parte do seu território, para a criação do município de Jaborandi (1985), que resultou na perda de cerca de 40% da sua área, e mais ou menos 20% da população.

Mas nada prejudicou esse ciclo econômico desenvolvimentista que perdura até os dias de hoje. Com menor intensidade, mas que se mantém de uma forma crescente e ininterrupta, influenciando o nosso município no aspecto socioeconômico, melhorando os indicadores de qualidade de vida, de saúde, educação e econômico-financeiro.

A ECONOMIA ATE OS ANOS 70 – Esse novo ciclo pôs fim ao sistema econômico então vigente no município, que era baseado na produção artesanal. Quase tudo o que alimentava a população e se utilizava ou se consumia era produzido localmente, quase sempre na forma de economia familiar: o comércio incipiente, as marcenarias e oficinas, as olarias, os ateliês, as alfaiatarias e até as pequenas propriedades rurais funcionavam com o trabalho das próprias famílias. Os poucos negócios que geravam alguma vaga de trabalho não familiar utilizavam a mão-de-obra informal.

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Havia em Correntina uma espécie de “indústria artesanal”, que produzia quase tudo o que se necessitava, em cadeias produtivas que faziam o dinheiro girar a economia local.

O couro do gado bovino era, em parte, curtido e vendido em peças inteiras para intermediários dos grandes curtumes, enquanto outra parte era beneficiada e, em pequenas oficinas de sapateiros e nas selarias, transformada em gibão, calça e no chapéu, no chicote, na cela, em sandália, sapato e até chuteira, entre outros produtos. Com o chifre se fabricavam as bingas – espécies de isqueiro.

A mandioca era um dos gêneros alimentícios que geravam cadeia produtiva, com a produção da farinha e da tapioca entre outros itens. O arroz era descascado nas usinas de beneficiamento para depois ser comercializado. A cana, moída nos engenhos, resultava na garapa, que, submetida a diversos processos agroindustriais dava origem a vários subprodutos. Na casa-de-engenho, fervida em tachos de cobre, resultava no melaço, que, depois de cristalizado e processado de diferentes formas, resultava no açúcar de forma – também conhecido como mascavo -, na rapadura, no batido. Em outro processo, a garapa ia para os coxos, de purgação, depois, era destilada, dando a cachaça – processos que ocorrem ainda hoje, em menor volume.

O algodão, também produzido no município, tinha duas destinações: uma parte ia para os teares, onde era transformado em tecido, com o qual se fazia calças, camisas, embornais e panos para o uso doméstico, ou para as rocas, onde se produzia um fio que, nas almofadas de bilros, eram confeccionadas rendas, utilizadas nas roupas femininas. A outra parte, após ser descaroçada nas usinas de beneficiamento, era vendida para outros municípios, onde era revendida a intermediários de empresas do setor de cotonifício.

Os produtos agroindustriais que eram “exportados” tinham como destinos quase exclusivos os municípios de Posse (GO) e Santa Maria da Vitória, principais parceiros comerciais de Correntina.

No livro História de Correntina, Hélverton Baiano, o autor, faz referência a várias atividades artesanais e ofícios com que artífices confeccionavam instrumentos, produtos necessários no dia a dia e até joias. “O mestre Zinza Araújo e o velho Oscar faziam verdadeiras preciosidades em ouro. Epifânio Guerra fabricava carimbos de umburana, com incrível perfeição artesanal. Raymundo Sales era um artista exímio, grande inventor e industrial. Fabricou por algum tempo o sabonete Globo, muito elogiado até hoje [2006, data de edição do livro] pelas pessoas que o utilizaram; fazia tinta para canetas da época (tinteiro ou bico de pena), e ainda uma gelatina usada para a impressão gráfica” (HISTÓRIA DE CORRENTINA, ED. ATUALIZADA, pag, 121).

Também utilizando a matéria-prima local, eram fabricados nas olarias os materiais de construção das casas: os adobes com que se levantavam as paredes, as telhas da cobertura e os ladrilhos dos pisos. Com a tabatinga se faziam as tintas. Nas serrarias eram feitas as linhas, os caibros e ripas que sustentavam os telhados. Nas marcenarias, também denominadas de “oficinas”, fabricavam-se as portas, janelas e os móveis das residências: as mesas, cadeiras, prateleiras, estantes, camas, criados-mudos, armários, além dos balcões e as prateleiras das vendas e lojas. Artífices fabricavam equipamentos como os engenhos, e as rodas d’água que utilizavam as águas dos rios para irrigar as plantações, além de mover as engrenagens das usinas de beneficiamento de arroz e algodão.

A cidade chegou a ter duas tipografias, que foram oficinas de jornais que circularam com periodicidade certa. Uma delas, pertencente ao jornal O Batuta, e a outra, ao jornal O Progresso, de propriedade do Major Félix.

Ateliês de costura e alfaiatarias, selarias, sapatarias, carpintarias, pequenas oficinas de ferreiros e de outros artífices completavam a imensa gama de pequenos negócios e cadeias produtivas artesanais que, juntamente com o comércio, geravam renda para quase toda a população, de forma que era “quase nenhuma a mão-de-obra ociosa”, como destaca Valnir, no seu livro (pag, 123). As madeiras, fibras, cipós e folhas eram (e ainda são) muito utilizados na produção artesanal de vassouras, peneiras, esteiras e redes; as penas das emas eram utilizadas para se fazer os espanadores.

URBANISMO, HISTÓRIA E TRADIÇÕES – Além de todas essas transformações realizadas na economia e nas atividades laborais, o desenvolvimento causou impactos também no urbanismo, nos costumes e nas tradições locais.

Com a chegada de milhares de novos moradores, a cidade passou por transformações profundas no aspecto físico, descaracterizando de forma irremediável o casario mais antigo, que data do Século XIX, da mesma forma como o calçamento rústico, que data do início do Século XX. No aspecto humano, a cidade perdeu os hábitos, os costumes e o modo de vida local. E no aspecto histórico e cultural, a “renovação” da população foi campo fértil para a perda de muito dos valores históricos e culturais, o que resultou no enfraquecimento das tradições locais.

Há de se levar em conta ainda, os impactos ambientais causados por esse ciclo desenvolvimentistas ao cerrado, pela implantação dos grandes plantios; a utilização da água dos rios na irrigação,

Foto divulgação
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Foram muitas as transformações pelas quais Correntina passou nesses 88 anos, especialmente, a partir da década de 1970: positivas e negativas, e vão continuar a correr e a influenciar nos destinos da nossa terra e da nossa vida.

*Dados do ano de 2025. Obtidos no igma.aquila.com.br com dados do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia.

2 COMENTÁRIOS

  1. Olá Teoney Guerra (TONY), parabéns pelo conteúdo! É muito oportuno se comentário a respeito do desenvolvimento da nossa querida CORRENTINA! 👏 👏 👏

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