Publicado em 5/1/2025, 7h10

Correntina não terá mais Carnaval
Teonei de Araújo Guerra*

No ano de 1950, os músicos Dodô e Osmar criaram o “pau elétrico” e, numa “fobica”, desfilaram pelas ruas centrais da “cidade do Salvador” tocando frevo. Novidade que se uniu ao samba e às marchinhas do carnaval de rua da nossa capital. Modernizados, o “pau elétrico” se tornou a guitarra baiana, e a “fobica” deu origem ao Trio Elétrico que, no ano de 1975, recebeu o cantor Moraes Moreira, a primeira voz a ecoar sobre um trio. Assim, o frevo, ao solo da guitarra baiana ou cantado, tornou a festa carnavalesca baiana de rua diferenciada da então realizada no restante do país.

No comecinho dos anos 1980, Luiz Caldas criou o Axé, ritmo que também foi incorporado ao Carnaval de rua, e se juntou aos blocos e a percussão dos cortejos afro – que já desfilavam na festa momesca, mas sem o merecido destaque – complementando o jeito baiano de fazer a folia.

A mistura dos solos da guitarra baiana e o frevo cantado, com o axé e a percussão dos cortejos afro deram então o tom do Carnaval em todo o nosso estado, uma folia com características únicas, inigualáveis.

Ao longo dessas mesmas décadas, o Carnaval de rua de Correntina – que até fins dos anos 1960 se limitava aos desfiles de alguns poucos foliões e dos caretas – foi incorporando alguns desses elementos e arrastando os foliões pelas ruas na cidade, numa folia autêntica, assim, tornando-se uma festa “especial”, principalmente para os turistas vindos de Goiás e do DF, que experimentavam um pouco da nossa baianidade. Nos últimos anos, porém, o Carnaval local vem perdendo, gradualmente, a sua essência.

Neste ano, a grade das apresentações de uma pseudofolia, tendo por atrações Zé Neto e Cristiano, Xand Harmonia, Igor Kanario, Fantasmão, La Fúria, Tribo da Periferia, Alok e DJ Breno Paixão, entre outras bandas e cantores, surge como a derradeira “pá de terra” sobre o que ainda sobrevive desse Carnaval raiz, ameaçando transformá–lo em um Frankenstein, uma festa bizarra, sem identidade nem tempero; simples shows, como os que são realizados em Brasília, Goiânia ou em qualquer outra cidade, em março, de abril, maio, julho, agosto, setembro, ou qualquer outro mês do ano. Assim, o Carnaval raiz, caldo de cultura nutritivo que alimenta a nossa alegria, vai deixar de existir.

DESCARACTERIZAÇÃO – A descaracterização do Carnaval, não apenas aqui em Correntina, mas também em muitas cidades da Bahia, é um processo que visa eliminar essa nossa manifestação identitária e cultural. Ano após ano, bandas, cantores e ritmos alheios ao festejo, que nada, nada, nada têm a ver com a folia tomam o lugar da música típica dessa nossa festa tradicional. Tornando o Carnaval uma festa cujo único objetivo é atender aos interesses comerciais e financeiros dos produtores e empresários que dominam o mercado fonográfico-musical brasileiro. Pessoas que estão “se lixando” para a tradição, a cultura carnavalesca e o seu imenso legado cultural. Porque nada disso lhes interessa.

O Carnaval está deixando de ser a “festa especial, com sua música de época”, se tornando uma festa popular comum. Os esforços que as prefeituras e os empresários estão envidando para descaracterizá-la é uma estupidez, e um desrespeito a tanta gente que, ao longo das décadas, deu o melhor de si, criando, inovando-a, dando a ela essa característica tão nossa, tão baiana.

Resta-nos a nós, foliões correntinenses, curtir o que pode estar sendo os últimos dias do legítimo Carnaval de rua, com as Bandinhas e o Trio Retrô. Porque no mais, como diz o verso da música, o Carnaval acabôôôu, acabou!

*Teonei de Araújo Guerra é jornalista provisionado, escritor e colaborador do Jornal de Correntina.






Belo texto, Teonei. Sua análise sobre a descaracterização do nosso Carnaval é cirúrgica e toca em pontos que muitos de nós sentimos. No entanto, é preciso refletir que a evolução, por mais que às vezes nos doa, faz parte intrínseca da cultura. Os tempos mudam, os gostos se transformam e é natural que a sociedade evolua e busque novas formas de expressão, mesmo que elas pareçam “estranhas” para quem viveu a essência de outrora.
A cultura é um organismo vivo, não um monumento estático. Podemos traçar um paralelo com o próprio jornalismo: antigamente, tínhamos o jornal impresso, muitas vezes quinzenal, que passava por um rigoroso controle de qualidade e uma curadoria lenta. Hoje, vivemos a era do digital, onde a rapidez impera e, infelizmente, lemos as mais diversas besteiras em portais que abandonaram o papel. A forma mudou, o rigor mudou, mas é o reflexo da sociedade atual.
O que vemos em Correntina hoje — essa transição do “Carnaval raiz” para grandes shows comerciais — é o reflexo dessa mesma mudança geracional e tecnológica. Pode parecer que a essência se perdeu, mas talvez estejamos apenas testemunhando o nascimento de um novo ciclo. A evolução não pede licença; ela simplesmente acontece porque os tempos são outros. Parabéns pela reflexão que nos permite debater o futuro das nossas tradições!
PARABÉNS TONY, PELOS RELATOS! INFELIZMENTE, TENHO QUE CONCORDAR COM SEU PONTO DE VISTA! SERTANEJOS E PRINCIPALMENTE, SERTANEJOS UNIVERSITÁRIOS NADA HAVER COM O RITIMO CARNAVALESCOS! “JÁ NÃO SE FAZ CARNAVAL COMO ANTIGAMENTE”.
Concordo plenamente com você, existe sim uma descaracterização, não apenas no Carnaval, mais como no são João, aqui de Correntina, que nem as ruas são enfeitadas mais. Vivemos um processo de padronização cultural.
* Vale ressaltar que mesmo cantores de outros ritmos como o sertanejo, eles mudam o repertório e cantam os clássicos do Carnaval.
Por fim, Carnaval em Brasília e Goiânia não presta é uma parada gay, Correntina não atrae foliões de lá, pois as cidades de Minas Gerais tem Carnaval com os tradicionais blocos e manchinhas é até mais perto deles. Correntina atrae foliões das cidades vizinhas, até porque a única concorrente aqui na região é Barreiras, pois Santa Maria da Vitória só tem o pre-carnval, Santana tem Micareta em dezembro, e Bom Jesus da lapa também é em dezembro.
O IMBRÓGLIO ENTRE O ANTIGO E O MODERNO CARNAVAL
O grande escritor e jornalista que muito admiro Teoney Guerra faz uma crítica à descaracterização do Carnaval de Correntina, que segundo ele, está perdendo sua essência e identidade. No entanto, o comentário do Dr. Vagner Rocha traz uma outra perspectiva interessante sobre a evolução da cultura e a necessidade de se adaptar aos novos tempos.
Concordo com o Dr. Vagner Rocha quando afirma que a cultura é um organismo vivo e que a evolução é uma parte natural do processo. O Carnaval de Correntina pode estar passando por uma transformação, e não necessariamente uma perda de identidade.
É importante lembrar que a tradição não é estática e que as novas gerações têm o direito de criar e recriar a cultura de acordo com seus próprios valores e gostos, como fizemos em nossas épocas. Além disso, a tecnologia e a globalização têm permitido que as pessoas acessem e sejam influenciadas por diferentes culturas e estilos musicais.
No entanto, também é importante preservar a memória e a história do Carnaval de Correntina, para que as novas gerações possam entender e apreciar a riqueza cultural que foi construída ao longo dos anos, daí a necessidade de incrementarmos e investirmos na “bandinha de sopro e percussão”, bem assim nos blocos que caracterizam nossas épocas.
Posso concluir em apertado resumo, que o texto do letrado Teoney Guerra é uma crítica válida quanto à descaracterização do Carnaval de Correntina, mas o comentário de Dr. Vagner Rocha traz uma perspectiva mais ampla e reflexiva sobre a evolução da cultura. É importante encontrar um equilíbrio entre preservar a tradição e permitir que a cultura evolua e se adapte aos novos tempos.