Publicado em 26/2/2026, às 5h10


Enlatados
Todo jovem desempregado sonha com uma oportunidade. No Brasil, milhares se dedicam aos estudos para lograrem sucesso em concursos públicos. Eu fiz parte dessa estatística no coração do meu país e, felizmente, fui aprovada para trabalhar em um dos prédios do Eixo Monumental.
Que alegria! Que bênção!
Mas, todo entusiasmo, aos poucos, dava lugar ao desgosto do trajeto até o trabalho… De concurseira desempregada a servidora aprovada, acordar cedinho e me dirigir à estação do metrô, em horário de pico, já marcava o início do estresse diário.

A plataforma vivia lotada. O trem chegava, apitava, abria as portas e começava a batalha silenciosa, mas ofegante. A entrada no vagão, empurrando e sendo empurrada, me lembrava um curral. Lá dentro não havia espaço sequer para levantar as mãos; éramos presos pelas costas ou pelos ombros uns dos outros.
Houve dias em que me senti literalmente um adesivo colado no vidro da porta… e, sim, isso é bem a minha cara: eu consigo achar graça até no trágico.

Depois do metrô era a vez de enfrentar outra fila para pegar o ônibus, também muito cheio, e só então chegava ao prédio quadrado onde eu trabalhava. Escada cansativa ou elevador lotado eram os últimos meios para finalmente eu poder sentar em minha estação de trabalho. Quase todos os dias eu chegava dizendo aos colegas de baia que sabia exatamente como se sentia uma sardinha em lata.
Hoje, anos depois, vejo no auge das redes a trend das famílias enlatadas, aquelas chamadas de conservadoras após a crítica de uma escola de samba que, em tom de deboche, colocou a família dentro de uma lata.

Eu não pude deixar de pensar.
Primeiro, porque achei até genial a família ser colocada num contexto em que há substâncias capazes de manter a essência do produto, como o sabor, a textura e o valor. Fora desse cuidado, perde-se o que importa: os princípios mofam, os valores azedam, a moral vence antes mesmo da validade.
Em segundo lugar, percebi que ninguém está livre.
Todos somos, de alguma forma, enlatados.
Há quem viva comprimido pela correria.
Há quem esteja preso às próprias crenças ou tradições.
Há os que estão enlatados pela opinião alheia ou ideologias.
Há quem carregue latas invisíveis feitas de medos e ressentimentos.
E existem até aqueles aprisionados pela própria liberdade.
Precisamos admitir: viver enlatado não é fácil. Toda forma de conservação exige renúncias ao ar livre.

No metrô, eu não estava em conserva, estava espremida. Não por escolha, mas por necessidade. Quando a vida “melhorou” e passei a ir de carro, sentava confortável no banco estofado, porém muito mais tensa, presa no trânsito.
Foi daí que entendi outra verdade, simples e incômoda: mudar de lata não significa estar livre dela.
Muitos deixaram ambientes que consideravam restritivos em busca de liberdade, mas acabaram recebendo novos rótulos. O mesmo acontece com aqueles que se convertem à mensagem do evangelho e passam a enfrentar pressões para abrir a tampa, saírem do ambiente de conservação e abandonar aquilo que decidiram guardar.

Pela contemplação somos transformados, como escreveu o apóstolo Paulo.
No fim das contas, o que precisamos assumir não é se vivemos em latas, mas o quê (e como) estamos tentando preservar dentro delas, a despeito dos rótulos que nos são impostos.
Talvez a lata seja apenas um invólucro, e o que realmente importa seja o fruto que ela protege.
O que estamos conservando dentro de nossas latas?

É preciso cuidado com as más águas. Elas não preservam. Apenas corroem, silenciosamente, aquilo que ainda poderia permanecer bom.





