Publicado em 31/10/2025, às 08h55.

Gecilio Souza – Graduado em filosofia pela PUC-GO, mestre em filosofia pela UFG, Bacharel em direito pela UniCEUB, professor, Cordelista e poeta.

ANTÔNIO MEIRA, O IMORTAL
Por Gecílio Souza

Que somos todos iguais
É uma relativa verdade
Pois apenas num aspecto
Tem sentido a igualdade
Essa simetria é válida
No quesito humanidade
Mas cada pessoa é única
Com sua própria identidade

Sob o véu da legalidade
Também somos diferentes
Uns manipulam as leis
Outros morrem indigentes
As leis é que são iguais
Para os ricos e os carentes
Mas o abismo que os separa
Causa impactos transcendentes

Os versos subsequentes
Rimados desta maneira
São letras que se reúnem
Em cada linha ou fileira
Repletas de sentimentos
Que envolvem a alma inteira
É a homenagem poética
Ao saudoso Antônio Meira

O cordel hasteou a bandeira
Justo na praça central
Em cores azul e branca
As da paz universal
E o nome Antônio Meira
No formato garrafal
Anunciando a relevância
Deste homem vertical

Atenho-me ao essencial
Pois sua história é comprida
Honorável e pedagógica
Que deve ser enaltecida
Escrita com dignidade
Como tal deve ser lida
Sem reduzir seu valor
Apresento-a resumida

De lutas é constituída
Sua singela biografia
Em 1925
Antônio Meira nascia
Na região de Macaúbas
Interior da Bahia
Filho do senhor Joaquim
E a da senhora Maria

Ficou jovem e certo dia
Com a coragem foi parar
No interior de São Paulo
Numa fazenda trabalhar
Dois anos após decidiu
À terrinha regressar
Para em 51
Com Ana Oliveira se casar

Veja o que foi resultar
Deste enlace genuíno
Uma prole de mulheres
Natureza ou o destino?
Geraram nove herdeiras
Homenagem ao feminino
Que genética interessante
Nem um DNA masculino

O chão árido nordestino
Sob a atmosfera cinzenta
Seca intensa e prolongada
Que vida nenhuma aguenta
Uma estiagem severa
Nos anos cinquenta e sessenta
Fez a família migrar-se
Porque só vence quem tenta

A superação é lenta
Consoante a circunstância
Algumas das nove filhas
No alto de sua infância
A família buscou saída
Percorreu longa distância
Instalou-se em Coribe
Que tem água em abundância

Mantendo-se na observância
Do ordenamento cristão
O casal e suas filhas
Seguiam a religião
De parâmetros católicos
Com total dedicação
Nos ofícios comunitários
Tiveram forte atuação

Cioso em sua profissão
Era autêntico lavrador
Antônio fazia jus
Ao nome trabalhador
O sustento da família
Fruto do próprio suor
Atuou em cooperativa
Por compromisso e amor

Militante e defensor
Das causas ambientais
Fez parte do Sindicato
Dos Trabalhadores Rurais
Com o qual e pelo qual
Transformou seus ideais
Em realidade efetiva
E vitórias substanciais

Antônio Meira fez mais
Do que se pode imaginar
Como catequista animava
As devoções do lugar
Liderou folias de reis
Soube a cultura cultivar
Benzia contra quebrantos
Sem a ninguém descriminar

Também sabia levantar
A tal de arca caída
E assim os doentes tinham
A saúde restabelecida
Antônio Meira era amado
Por dar alegria à vida
Sua íntegra serenidade
Sempre foi reconhecida

Décadas de fé e lida
No meio daquela gente
Apóstolo da oração
Fervoroso e reverente
Participava das missas
Celebradas mensalmente
Pelo então padre André
Que da igreja estava à frente

Numa condição que somente
A conjuntura determina
Antônio consulta a família
Um novo projeto examina
Decidiram por consenso
Após madura combina
E na década de noventa
Mudaram-se para Correntina

Um misto de escolha e sina
Lastreado de luta e fé
A família foi acolhida
Pelo próprio padre André
Fixou-se em definitivo
Lá no bairro São José
Sua herança ético-genética
Permanece ali de pé

Antônio viveu até
Próximo de ter completado
Seus 85 anos
Do começo ao fim honrado
Viajou em 2010
Meio fora do combinado
Humildade e retidão
Ele as deixou por legado

Tornou-se imortalizado
Perante toda a cidade
Desde quando o poder público
Pela legítima autoridade
Do então prefeito Nilson
Que atendeu à sociedade
Ergueu-lhe uma escultura
Na rua da comunidade

Nos quesitos humildade
Desapego e coerência
Empatia e simpatia
Bem humorada paciência
O eterno Antônio Meira
Humano por excelência
Francisco de Assis baiano
Era puro na essência

Receba a minha reverência
Tributária e verdadeira
Sua passagem pela terra
Foi longa, porém ligeira
Os versos deste cordel
Representam a maneira
De poeticamente dizer
Vive e viva Antônio Meira!

2 COMENTÁRIOS

  1. É sempre prazeroso comentar as obras em forma de cordel de autoria do grande filosofo GECÍLIO.

    O cordel “Antônio Meira, O Imortal”, escrito pelo sempre ilustre Gecílio Souza, é uma belíssima homenagem que celebra a vida e a trajetória de Antônio Meira, destacando não apenas suas conquistas, mas também suas virtudes e o impacto que teve na comunidade. A obra revela uma profunda reflexão sobre a igualdade e as desigualdades sociais, discutindo como as leis são percebidas de forma diferente por ricos e pobres. Através de versos ritmados e rítmicos, o autor constrói uma narrativa rica em emoção e detalhes, evidenciando as lutas enfrentadas por Meira e sua família em busca de dignidade e progresso.
    Uma característica marcante do cordel é a valorização da cultura popular, utilizando uma linguagem acessível e poética que ressoa com as raízes nordestinas. O cordel enaltece a figura do trabalhador rural, da fé e do compromisso comunitário, encapsulando a essência de uma vida dedicada ao próximo e à luta por justiça. A homenagens a Antônio Meira não se limita a uma estética lírica, mas também funciona como uma crítica social, evidenciando a importância de reconhecer as trajetórias individuais em meio a um contexto colectivo, ressaltando que cada vida, marcada por desafios e superações, contribui para a tapeçaria da humanidade.
    Ao final, a obra termina com uma nota de reverência e gratidão, perpetuando a memória de Meira como um símbolo de humanidade e perseverança. Essa recapitulação não só destaca suas qualidades pessoais, mas também reforça a mensagem de que o verdadeiro legado de uma pessoa está nas vidas que tocou e nas mudanças que promoveu. Em suma, o cordel é um tributo exuberante, que combina poética e reflexão social na mais pura tradição da literatura de cordel.

  2. Inestimável Getúlio Reis,
    A generosidade é um dos valores não constantes no rol dos cardeais, mas o considero entre os supinamente elevados, como sugeriu Aristóteles.
    Os vossos comentários, habitualmente substanciosos, agregam qualidade aos textos sobre os quais você delibera-se a esmiunçar. O faz destacando a relevância do conteúdo, identificando eventuais facetas e, generosamente, enaltecendo a figura do autor.
    De resto, digna-se ao meu profundo agradecimento face à sua generosa apreciação!

    Gecílio Souza

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