Publicado em 12/3/2026, 15h13.

Foto ilustrativa.

Crônica de uma Mulher Desconhecida
Por Thaise Cotrim

Era pra ser um dia comum. Entrei na barbearia apenas para cortar o cabelo do meu filho, mas saí de lá envolvida na história de um casamento que nem era o meu e ainda ostentando o rótulo inesperado: aleatória.

Senta que lá vem história.

Chegamos na hora marcada. O barbeiro colocou a capa e posicionou meu pequeno para resgatar o seu visual impecável, do jeito que a mamãe gosta. Assim que me sentei, um senhor se levantou e veio em minha direção. Ele falava mais alto que o necessário e puxava conversa com uma empolgação que mais parecia um umidificador de ar. Respondi por educação.

O homem se aproximava mais do que eu gostaria. Aparentemente, tinha tomado alguns goles de “coragem líquida” e suas roupas denunciavam alguma atividade recente em terra molhada. Senti compaixão. E, por alguma razão, pensei na esposa ou nos filhos que poderiam estar esperando a chegada do patriarca. Não me contive e perguntei-lhe:

— Você é casado?

— Sou sim — respondeu ele, com um tom curioso pela pergunta improvável.

— Há quanto tempo? — continuei, interessada.

— Ah… Mais de 30 anos.

A conversa seguiu enquanto Rafael empregava a tesoura e o pente nos cabelos do meu filho. Ali mesmo descobri que eu estava diante de um homem renomado, fazendeiro bem-sucedido que fazia questão de bater no volume aumentado em um dos bolsos.

Mas, enquanto ele falava do dinheiro, das terras, das cabeças de gado, eu percebia que havia algo mais fundo. Uma necessidade de validação.

Em algum momento, eu disse a ele que a dignidade de um homem não se amarra com ligas… E voltei ao assunto da esposa:

— O Dia Internacional da Mulher está chegando. Já pensou no que vai comprar para homenagear a sua?

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— Bobagem, minha filha! Para com isso, você não precisa de homem para nada — disse ele, com o tom de voz alterado.

Respondi com firmeza e verdade:

— Eu não preciso de homem porque já tenho o meu, mas, ainda que não o tivesse, não precisaria dele para sobreviver. Posso ser independente, mas eu o escolhi para viver ao meu lado. Construir família. Educar nossos filhos. Sou feliz assim.

Ele ficou meio parado, processando, e eu insisti:

— Você diz que tem dinheiro, mas isso tem algum impacto real na vida da sua esposa? Ela se sente amada e valorizada?

E foi então que ele me contou

— Minha mulher… ela é minha dona…. uma mulher incrível. Cuida da casa, dos filhos, dos negócios… faz comida pra mim.

Para resumir a história: ele puxou um bolo de notas e me entregou uma singela quantia sugerindo que eu mesma fizesse a gentileza. Prontifiquei-me na hora.

O que comprar? Mulher gosta de chocolate. Um simples bombom já seria um gesto significativo, mas a loja estava fechada.

Como se eu tivesse tempo e gasolina sobrando, dirigi-me até O Boticário e escolhi um hidratante fluido e perfumado. Pensando por mim, imaginei como aquela mulher, que eu nunca vi, se sentiria surpresa e feliz ao receber o inesperado: um gesto de carinho de quem ela cuidara por 30 anos.

A vendedora, ao saber do motivo da compra, arregalou os olhos e disse:

— Você quer dizer que nem conhece a mulher?

— Isso mesmo — respondi, sorrindo.

— E conheceu o dono do dinheiro nessa tarde?

— Exatamente.

Ela riu meio incrédula e disse:

— Mulher… você é muito aleatória!

Diferente de tudo que já ouvi sobre mim, mas gostei da definição. Voltei à barbearia, entreguei a embalagem ao marido e dei a instrução:

— Quando chegar em casa, diga assim: “Meu bem, me perguntaram se eu era casado e eu me dei conta de que tenho você há mais de 30 anos. Refleti sobre o privilégio que é ter você ao meu lado por tanto tempo, cuidando de mim e dos nossos filhos, essa lembrança é só pra dizer que sou grato pela parceria. Eu te amo!”.

Ele balançava a cabeça enquanto pegava a sacola verde.

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— Você está certa. Deu até vontade de ir logo para casa.

E saiu dizendo:

— Vou levar esse presente pra minha mulher… Ela é minha dona…

Ele se foi. Não sei como foi recebido, nem como ele contextualizou o presente. Mas sei que, naquele dia, eu tive a satisfatória sensação de ter feito um casal olhar para a própria história e incentivado um homem a reconhecer o valor da mulher que caminhava ao lado dele há décadas, nutrindo-a emocionalmente.

Curiosamente, no meu próprio Dia da Mulher, eu não ganhei flores. Nem perfume. Nem bombom. Você ri?

Num primeiro momento, contrariei. Confesso!

Mas, depois de uma terapia profunda comigo mesma, e perceber gestos tão despretensiosos e naturais do meu marido, percebi a existência de presentes que cabem numa sacola do Boticário… mas também de outros que só cabem numa vida inteira.

Eles chegam sem embrulhos mesmo, disfarçados de rotina, cuidado e presença. E, quando não há outra pessoa para nos presentear, ainda existe o famoso “me mimei”, porque reconhecer o próprio valor também é uma forma de presente.

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No fim das contas, talvez eu tenha ajudado um homem a se lembrar da esposa, a “sua dona”…
e lembrado a mim mesma do privilégio de receber, ou simplesmente reconhecer, os presentes que o dinheiro não compra.

Quanto a tal mulher desconhecida…

Talvez todas nós sejamos um pouquinho dela.

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