Publicado em 15/4/2026, às 10h21.


COLA PRA QUÊ?
Em minha infância, vi sandálias havaianas, aquelas brancas com a cor do solado combinando com as correias, serem reparadas com pregos ou arames.
Na melhor das hipóteses, para que a caminhada não fosse interrompida com a saída do botão de borracha na parte frontal do chinelo, aproveitava-se uma correia sem uso, ainda que de cor diferente e: Voilà! Tínhamos um novo par que resistiria, no mínimo, a mesma quantidade de tempo que já havia durado.
Quem da minha geração nunca ouvira falar em durepoxi? A solda a frio na cor cinza era a solução perfeita para remendar cabos de panelas ou qualquer outro objeto cujo material fosse compatível com o produto milagroso.
Mais que beleza, o importante era a funcionalidade e, claro, a economia.
Hoje, as coisas mudaram lá na cidade grande. O lixo é um luxo e basta qualquer sinal de uso ou marca de tempo para que o descarte ou desapego seja efetivado.
Entretanto, no interior ainda existe um quê daquele meu passado, longe de miséria, mas de valorizar quando se é importante.

Como tenho tido mais tempo de introspecção, ao analisar minhas novas experiências e sentimentos, foi inevitável uma reflexão depois da situação que vivi e passarei a relatar a seguir:
Ganhei uma sandália como presente de aniversário ao completar meus 40 anos. Faz pouco tempo, viu? Amava meu calçado pretinho básico. Era bem confortável e toda vez que o colocava no pé degustava doces lembranças…

Mas, com o uso frequente, inevitavelmente, a sandália começou a demonstrar seu desgaste e a tal “boca de jacaré” surgiu depois que as esferas douradas perderam a cor que davam um certo charme ao envolver o meu tornozelo.
Um dia, na área da aconchegante casa de painho e mainha, abrindo o início de uma sola descolada, eu disse ao meu marido: Amor, preciso de um presente!
Antes que Roginho, meu esposo, respondesse que eu não sou centopeia e tenho muitos outros pares, o meu sogro, em tom grave e ritmo arrastado, disse:
– Ô Thaise, essa sandália nunca chegou nem na metade da vida dela.
Eu achei graça, e apesar de discordar dele e ter uma outra alternativa, mesmo naquelas condições, optei por usar o calçado de estima para ir a um singelo evento.
O previsível, embora não esperado, aconteceu. O solado abriu de vez. Uma tira que envolvia os dedos descolou e, de repente, lá estava eu com o pé no chão e o tornozelo preso pelo laço feito com a estreita fita de couro. O outro pé insistia em permanecer elegante, mas o caminhar capenga não permitiu tal façanha. Foi bem engraçado!

O melhor foi sentir tanto carinho das amigas que correram para dar um jeito de resolver meu problema. Jamais vou me esquecer da grande mobilização que fizeram por mim, bem como da solução dada.
Poderia dispensar por lá mesmo aquela que me deixou na mão, ou melhor, com pé no chão, mas parece que eu queria me despedir dela e coloquei-a numa sacola. Chegamos a casa e claro que não iria perder a oportunidade de evidenciar o quanto meu sogro estava equivocado sobre o prazo de vida útil de minha sandália, ao que ele ficou sem graça, mas de pronto disse: “Uai, tem cola pra quê? É só colar!”.
Ela foi um presente e esteve presente em inúmeros momentos da minha vida. Ela acompanhou lágrimas e sorrisos, saltos e tropeços, mas se desgastou. Por gostar tanto e ser minha preferência na composição dos looks, eu acreditei que me continuaria servindo, mas foi um engano. Não tinha escolha… Já deu né? Afinal, continuarmos juntas seria totalmente condenado pelos teóricos da prosperidade.
Não tive coragem de jogá-la no lixo, mas deixei-a ao lado da lixeira para que, no dia seguinte, ela seguisse seu inevitável destino: o descarte no fogo.
Poucos dias depois, minha sandália não estava mais onde eu havia deixado e tentei desencanar.
Eu tenho conhecido mais de perto um anjo que atende pelo nome de Elza, a quem ultimamente chamo de sogrinha. Não só por isso, mas foi muito emocionante para mim ver em suas mãos aquele par de sandálias novamente, mas, dessa vez, limpo e restaurado.

“Eu colei pra você”, disse ela, “ainda dá para usar mais uns dias”, completou.
Mal tive palavras, arregalei os olhos, agradeci e tive de ouvir meu sogro, outro anjo em minha vida, falando daquele jeitinho que só quem conhece sabe imitar:
– Eu não falei procê? Ela vai durá é muito ainda.

Não consigo exprimir bem a lição que aprendi naquele dia, mas sempre que uso novamente minha renovada sandália, ainda que com as esferas desbotadas e solado desgastado, eu peço a outro ser celestial, o Supremo, restaurar tudo que está meio descolado em minha vida.
Eu não sei se você está na metade dos seus dias, talvez se sinta desgastado, desprezado ou desnecessário em alguns contextos, mas, acredite, sempre haverá alguém que, conhecendo ou não a sua história, enxergará o seu valor e suas potencialidades.
Há quem possa colar as fissuras que marcaram seu coração e te deixaram tão exposto para te limpar e restaurar sua imagem.
Ainda que não volte a ser exatamente como antes, ficará surpreso com seu novo desempenho ao regressar à caminhada nessa instigante trilha chamada vida. Sem preocupações com as marcas externas, procure curas internas e fique em paz com a certeza do valor que você tem.

Por fim, a última lição: “Quando pensar em descartar algo que ainda carrega história e que tenha algum valor emocional… vale lembrar: tem cola pra quê?”





