Publicado em 12/4/2026, às 12h12

A BARRAGEM DO RIO DAS ÉGUAS E A SUA MAGIA.
Por Antonio Rocha

O rio corria tranquilo, ladeira abaixo, brincando de fazer curvas, alternando o ritmo da velocidade. Noutros momentos, movendo-se em círculos até formar redemoinhos d’água. O povo chamava isto de remanso. Foi assim que conheci o Remanso do Estreito, popularmente Remansão, além de outros como: o Remanso de Bazu, o Remanso de Celso e, por último, o Cabeludo da Véia Loura. O rio ia, dessa forma, brincando de fazer espumas, devido ao atrito da água sobre as pedras. Cada batida, um salto espumante desmanchando-se no ar, como gotículas de neblina a formarem um véu de orvalho em tempo de cerração.

Foi num desses grandes saltos, denominado queda d’água ou cachoeira, que aqueles homens de fora resolveram construir uma represa. Ali, exatamente ali, nasceu a Usina de força elétrica que, mais tarde, veio a ser chamada Hidrelétrica de Correntina. Ela substituiu a iluminação artesanal à azeite, que alimentava as lamparinas dependuradas nos postes de aroeira. Enquanto isso, as águas iam correndo e brincando e, nessa brincadeira, foram represadas no ponto da queda, antes de chegarem ao povoado Cerco. Foi lá que nasceu a barragem, executada pelas mãos de homens e com o auxílio de máquinas.

Águas iam rodopiando e, de tontas, quase sopitavam pelas bordas dos canais. Aliás, em alguma parte ainda sopitam, mas apenas quando os homens querem ou quando a natureza derrama chuvas torrenciais no extremo da cabeceira. Fato é que mexeram com o rio, cirurgiaram o seu corpo, interferiram em sua coluna e invadiram as suas entranhas. Tal intervenção alterou, substancialmente, o seu jeito de andar. Mas o herói persiste na predisposição natural de continuar, a todo custo, a própria jornada.

Acompanhado do projeto da barragem, vieram homens, máquinas e dinheiro e com isso, a cidade se encheu de esperança. Incontestavelmente, aquilo constituía-se no prenúncio de pão na mesa e sorte para as moças na fase de casamento. Interessante é que, além de animar a Vila que já ostentava status de cidade, muitos casamentos foram ajeitados e muitas famílias foram constituídas. Isto porque, jovens que vinham prestar serviço à companhia de eletrificação, casavam-se e permaneciam por aqui. Assim, os vínculos afetivos iam se ampliando, até mesmo pela via dos laços de compadrio.

Terminada a obra de edificação, que compreendem o represamento, a montagem de turbinas e a geração de energia, muitos operários iam embora, enquanto outras qualificações, ficaram para dar sequência à manutenção do grande feito da CODEVASF. Desde então, Correntina se tornou uma das mais importantes cidades da região, gerando e abastecendo as demais, com a energia produzida das próprias entranhas.

Dessa forma, a euforia e o encantamento dos correntinenses eram de tal ordem, que todos os funcionários da COELBA, do técnico ao engenheiro, do leitor dos relógios ao apontador, com exceção do porteiro e do guarda, passaram a ser chamados de doutores. Talvez por isso os funcionários da Usina arrumavam casamento fácil na cidade. Sim, porque em razão de seus cobiçados postos, presumivelmente representavam a garantia segura da manutenção da prole.






Mais um ótimo texto, em uma crônica, do autor.
Parabéns, Antônio!
Gratidão, meu ilustre e imortal,Teoney Guerra… Você é uma das nossas pérolas literárias.
Belíssimo texto, Antônio!
Eu fiquei profundamente feliz ao lê essa crônica onde remete ao longínquo passado do meu pai Nascimento. Gratidão por não permitir que esse feito tão importante caía no esquecimento da nova geração.
Grande, inesquecível e reverenciado Nascimento. Nosso inventor e, mais que isto, cientista de Correntina. Um homem extraordinário e um ser humano irretocável.
Conheci bem o seu pai… sempre elegante!
Obrigado a você, Edney…
Pena que todos esses lugares citados, remansos, cachoeiras etc etc não existem mais… foi naquele nosso tempo, em que passávamos por cima dessas pedras com nossas barrigudas ou boias de carro. Sabiamos onde estava cada pedra e por vezes era uma proeza ficar de pé sobre uma delas, como a Pedra do Remanso próximo do Maretão… O Sorrisal… A Pedra do Lajedo frente ao Mercado; O banheirão das mulheres o Lavador dos homens… nada disso existe mais. O remanso de Bazú foi aterrado como aterrado pelo assoreamento o Remanso de Celso, o Remansão de Dona Susu; até a grande atração que era cachoeira, tornou-se um agromerado de rochas!…
Hoje hoje o Rio mais parece um riacho cheio do pedras como se fosse fraturas expostas no leito rio… valido como poesia ou pra turista vê, porém muito triste para nossa geração que conheceu este rio pujante; com volume que nos perdia tirar flechas, nadar contra a corrente e desafiar o ponto em que queríamos sair do outro lado… Uma pena que para muitos é um belo rio e para nós um grande riacho doce que poderia ser melhor aproveitado enquanto ainda corre… Cinco piscinões corrente revitalizava toda a orla do rio, a saber: (1) comportas até antigo remansão CELSO – CRIADOR PEIXES (2) frente ao mercado – UM PESQUE E PAGUE (3) fonte das Paturi/Maretão – BANHO E LASER , (4) frente ao manancial BANHO E LASER e (5) e frente ao OCE. BANHO E LASER. AÍ SIM o rio tronaria mais atrativo.
Descreveu bem, meu caro e ilustre escritor, Flamarion. Fiquei com saudades, diante de sua fiel e verdadeira narrativa. Saudades meu amigo!!!