Publicado em 20/5/2026, às 19h15

O CAÇADOR DO BICHO-PODER

Conta a lenda que certo homem, num determinado dia, decidiu entrar na floresta à procura de um bicho, cujo nome era Poder. Isto deu-se após incansável e extenuante busca, que havia se estendido por dias inteiros… Para promover tal façanha, ele propôs hipotecar tudo o que tinha: os bens, a família, os parentes e até a própria alma, se preciso fosse. É que o dito caçador aprendera, quando ainda era criança, que o tal bicho chamado Poder, era extremamente desejado e cobiçado por todo mundo, no planeta inteiro. A propósito, aquilo que se convencionou chamar de poder, era proclamado por magnatas além de reverenciado e sacralizado pelo povo. Quem o possuía não costumava abrir mão por nada tratando-o como coisa de estimação.

Desta forma, os seus detentores não perdiam a ocasião de ostentá-lo ou exibi-lo diante de uma histérica multidão. Era assim nas praças, nas ruas, nos estabelecimentos, nos espaços sacros ou nos espaços profanos, na família e nas rodas de amigos, nas escolas e na alta sociedade. Dizem que o tal Poder é mesmo um bichinho sedutor. Por ele alguns matam, roubam, traem-se e se corrompem.

É curioso que o poder que reluz é o mesmo que ofusca, transformando seu detentor num misto de atração e vaidade. Quem lida com ele deve, por precaução, estar sempre atento para o risco que pode oferecer. O Poder sempre é traiçoeiro, dissimulado, imoral, incoerente, inconstante, mentiroso, volúvel e sarcástico. Mas, voltando ao caso, aquele homem, despropositadamente, de tanto procurá-lo, achou-o! Capturou e o levou para a casa, sem saber que, por trás do brilho luxuoso, invariavelmente o Poder cheira mal.

Para confirmar tal percepção, o deslumbrado encanto do caçador de poder, durou pouco. Apenas uma lua de mel efêmera, um encantamento relâmpago, um romance extenuante. O Poder pelo poder, em regra, causa solidão, tédio e depressão. Segundo teorias, para suprir o vazio, aqueles que imaginam poderosos inventam festas e quaisquer outros entretenimentos das massas, visando à manipulação delas. O poder demanda vigilância, monitoramento e reinvenção, caso contrário se enfraquece e cai. Ouvi dizer que quem o possui e não observa esses pressupostos, é mais suscetível ao tédio. Esse é um dos motivos pelos quais quem o detém tende a formar massa de adoradores, espécie de fã clube, de interesseiros, de bajuladores e hipócritas aproveitadores.

Assim, para manter o cordão dos subservientes, das massas amorfas e dos amigos mais próximos motivados e vigilantes na militância e na defesa do dono do poder, seu detentor organiza pão, circo e festas. Sem dúvidas, os adoradores do Poder só se motivam com a consciência anestesiada. Engana-se quem pensa que o pão cotidiano vem somente na cesta básica. Pelo contrário, na cesta da ilusão e na lógica do vil Poder, entram outros pães, os quais nem ouso mencionar os produtos que lhes compõem.

Recomendo ao leitor, tão somente a análise atenta dos noticiários. São pães feitos com outras farinhas, com sanduíches de outras carnes e bebidas feitas com outros componentes químicos. E tome ópio, ópio sem parar. Por fim, aquele homem caçador de Poder não tardou a descobrir, para sua grande decepção, que o Poder era uma armadilha e que sua sedução não passa de silenciosa ilusão. De fato, o Poder é mesmo um engodo, um suicídio ético, uma decadência da moral, uma negação da verdade e da reta intenção de se praticar o bem comum.






Exente artigo.
Em outras palavras,o bichão ” Poder”, é viciante, como qualquer outra droga.
Parabéns ao autor do artigo ou crônica: O bichão “poder”. Excelente👏👏👏👏 e como é triste os efeitos da presença deste Bichão!!!! (Anônimo)