AMOR DEFLORADO

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AMOR DEFLORADO

Colunista Hélverton Baiano

Os grudes do casamento indo nos três anos e Cláudio matutando na decisão tomada, parecendo já enjoado de Mariana, que fora seu chamego nos últimos cinco anos. Ele com 27 anos e ela com 25, pispiaram uma vida a dois, macerando hormônios e amor, sem saberem desses ingredientes o mais forte. Ainda bem que concordaram num relacionamento sem filhos nos cinco primeiros anos. Os comedimentos da rotina a dois não adjutoravam seus ímpetos e, então, ele encontrou Amanda. A partir daí, vivia pensando por que fui amarrar minha égua tão cedo, gente?

No último ano, ele titubeava no casamento, justamente quando Amanda apareceu, junto com a pandemia duma doença infernal, que espalhava um vírus matando muita gente no mundo todo e exigindo cuidados e precauções. Os cuidados pediam trabalhar em casa e sair pouco, mas Cláudio tinha várias exigências presenciais. Mariana percebeu um certo arrefecimento da parte dele, indagava e a resposta era chocha. É essa pandemia, meu bem, venha cá, ele dizia, e se esmerava em carinhos azedos e futricas sem graça.

Os efeitos deletérios da pandemia definhavam gente, mesmo depois de passada a infecção, provocando uma cura obscura que diluía, doloria e até matava algumas pessoas que se infectaram, quando menos se pensava.  Os descuidos de depois ceifaram muita gente boa, mesmo porque os hospitais não chegavam para quem queria ou precisava.

A relação azangou e vieram as rusgas no casamento e uma infecção com a doença da pandemia para Cláudio, que o arremessou nos emaranhados infitecos do hospital. Pegou de jeito, foi para a UTI, ficou quase um mês bamboleando entre a vida e a morte, mas se safou e voltou para casa estropiado. Volta e meia sentia uns troços que o bambeavam e depois ele aprumava de novo. Penou um tempo, se refez, desdefuntou-se de vez, mas não relegou os futricos com Amanda.

Mariana o acolheu, deu colo e chamego, na tentativa do retorno daquele Cláudio que ela tanto amava e do tempo de amor sem tamanho. Tem algo de errado, amor? Tem não, querida, acho que é mesmo só essa indisposição que a doença causa. Ela matutava e não entendia o que havia de errado ali. Certo não estava. A coisa não era mais a mesma. Melhor é desfazer tudo isso, ela pensava, mas insistia, pagando pra ver até aonde ia. Quer saber, é cada um pro seu canto, que deve haver muita vida depois disso aqui, ela imaginava, remoendo consigo uma dúvida de que a relação enferrujara. Ficara órfã de pai quando criancinha e só muito tempo depois soube que ele fora assassinado por um marido traído. Essas dores vieram à tona.

Cláudio desfazia consigo os planos com Mariana, enrolando a decisão nos cabelos das pernas, mas ainda não arranjara os panos com Amanda. Assanhou-se com uma e esfriou-se com a outra, numa lenga lenga conjugal dos diabos.

Mariana caçou o motivo e descobriu o furdunço. Então é com aquela sem vergonha que ele está se metendo?!?!  Já havia uma rusga entre as duas, o que aumentou a raiva, a fúria e o tempero do que se come frio. Mas ela engoliu sem resmungo. Matutou, sabendo de antemão que, por causa da peste, os defuntos não passavam por autópsia e os enterros eram rápidos e sem velório.

Mariana astuciou e, passados uns dias, Cláudio teve nova recaía, foi internado e sungou a estatística dos que foram abatidos pela pandemia.

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