Publicado em 05/04/2025 às 19h19.

O OLHEIRO DE DOUTOR LAURO.
Por Antonio Rocha.
Não é de hoje que as trapaças da política se armam, sordidamente, na surdina da cidade. Retroajamos no tempo até a década de 60, contexto em que o episódio descrito a seguir aconteceu. Estava tudo armado, como um nevoeiro que antecede a chuva.

Naquele cenário, as lonas do circo se esticavam, aguardando os expectadores. No âmbito municipal, a política efervescia-se e os concorrentes, sorrateiramente, preparavam suas armadilhas através de investidas que visavam desabonar o caráter dos adversários. As estratégias impediam que os alvos escapassem da mira dos competidores.

Com tal finalidade, preparava-se o banquete da morte. Foi assim que, na ocasião, se reuniram num jantar, confabularam, articularam e urdiram a trama. Teria que ser, impreterivelmente, naquela noite ou, no máximo, ao raiar do dia seguinte. Ocorre que ele viu e ouviu tudo. Mas, ele quem? O olheiro! Sorte do filho do major, pois naquela noite o inspetor fiscal estava de guarda no Cine teatro da prefeitura. Era noite festiva e a nata da sociedade encontrava-se presente, uma vez que por nada perdia aquele festival.

Era um dos poucos atrativos da granfinagem do lugar. O flagrante foi feito Justo ele, Odilon Barbosa, funcionário público municipal e confidente de Lauro. Exatamente ele que, com olhos de coruja e ouvidos de teiú, flagrou e testemunhou o conluio, a negociata, a encrenca à qual pretendiam envolver o médico vocacionado pela política.

Eu, particularmente, cresci ouvindo dizer que o referido doutor era um dos homens mais admirados, estimados e amados na região, tanto pela sua sapiência nas ciências médicas, quanto pela sua avançada visão política. Não obstante, o doutor atraía inimizade e colecionava muitos inimigos. Na condição de confidente do doutor político, o guarda daquela noite memorizava tudo, na “cachola” e no coração. Foi então que, a pretexto de ir em casa para desobrigar-se de uma grande necessidade, o fiscal pediu que alguém o substituísse pelo prazo de meia hora. Odilon rumou-se para casa e, de lá, foi diretamente para a residência do médico. Sigilosamente, relatou-lhe o plano dos desafetos.

Após o relato, o médico anoiteceu e não amanheceu. Quando procuraram por Lauro, este já estava longe da cidade e fora do alcance dos contendores. Mas quem, por ventura, o teria avisado? Indagavam os seus opositores, cuja resposta ninguém sabia dar. O mistério perdura até os dias atuais. Especula-se, porém, que o doutor Lauro teria se instalado na cidade de São Domingos de Goiás, onde permaneceu por alguns anos, praticando medicina.

Para concluir, presume-se que foi dessa forma que Correntina privou-se do ofício e do trabalho de um dos mais conceituados profissionais da medicina, além de sua percepção política e humanista. Curioso é que a nossa cidade sempre foi vitima dos interesses escusos, egoísticos e mesquinhos de grupos preocupados exclusivamente com os próprios interesses.
