Publicada em 20/12/2025, às 20h40.

Antonio Rocha.
Possui graduação em Filosofia pela PUC Goiás, graduação em Direito, Licenciatura em História, Curso Seminarístico de Filosofia pelo Instituto de Filosofia/teologia de Goiás, Curso livre em Teologia (1993), especialização em Filosofia Clínica, e mestrado em Ciências da Religião pela PUC Goiás. Ex- Professor efetivo da PUC Goiás, foi professor convidado do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás.

AS PARADAS OBRIGATÓRIAS NOS PONTOS DE SAIDA DE CORRENTINA

Foto de Correntina (Imagem do Grupo Relíquias de Correntina-Facebook).

Com uma espécie de recaída nostálgica, esse articulista traz às leitoras e aos leitores notícias sobre algo antigo que, contextualizado, reveste-se de roupagens plenamente modernas. Correntina parece ter sido plantada sobre um buraco mas, com o passar dos anos, vem avançando pelas encostas e expandindo-se cada vez mais celeremente, a despeito dos íngremes acidentes geográficos que caracterizam seus locais de acesso. Devido às suas naturais características, a necessidade de uma pausa no topo do elevado, que se apresenta como o ponto mais alto da região, é imperiosa. A propósito, o costume vem desde quando a cidade ainda era Vila. Registra-se que, em todas as saídas, havia sempre uma porta aberta, um boa alma disposta a oferecer condições de restabelecimento das forças do viajante, invariavelmente exausto da viagem.

Imagem de internet.

Às margens da rodovia de acesso a Goiás, encontrar-se-ia dona Franciscona, uma senhora extremamente afável, mãe de Aurelino, popularmente conhecido como Olerino. Em sua elevada residência, habitualmente ela servia um gole d’água fria e um cigarro de fumo, ao passante. Já na saída para Santa Maria, o cidadão estradeiro contava com a guarida dos bem-afeiçoados seu Anjo e Felão, radicados na parte mais alta do Barrocão. Quanto aos que trafegassem na direção da saída do estreito, contavam com os préstimos de Pedro Ferreira e Pedro guarda, que serviam raspa de rapadura com farinha. Por outro lado, aqueles que buscavam a saída de Barreiras, tomavam uns pileques de conhaque ou de brejeirinha para enfrentar a estrada, exatamente na casa de Sá Dominga, mãe de Fia de Felão da Vereda Grande.

Imagem de internet.

Das quatro saídas da cidade, talvez fosse a Extrema o lugar mais celebrado e rememorado, por tratar-se de uma espécie de entreposto, lugar de parada quase obrigatória. Era uma via estradeira onde trilhavam boiadas e boiadeiros, carreiros e vaqueiros, conduzindo reses bravas e arredias. Por ali também passavam muitos roceiros, sobrecarregados, com a finalidade de vendar seus produtos na feira da cidade. A cavalo ou à pé, uma mutuca de coisas daqui, outra d’acolá, para posteriormente retornarem para casa com o pão Frances, o café, a aspirina, o sal e um metro de tecido de pano. Era exatamente na extrema, o ponto de descanso, do respiro, do fazer a meia boca, de tomar uma dose de pileque, para dar sequência à jornada.

Imagem de internet.

A extrema funcionava como um posto de abastecimento, onde abastecia-se a coragem e recompunha-se a energia, porque após um dia extenuante, carecia de um choque nos nervos, com uma dosinha de aguardente. Às vezes o entusiasmo do encontro, o torpor e a embriaguez pela cachaça, fazia a prosa prolongar-se. Quando isso acontecia, o freguês pedia pouso por ali mesmo, na casa da própria Sá Dominga. Com o decorrer do tempo, o boteco de Amélia de Juvêncio é que sucedeu e herdou a clientela daquela senhora. Vale lembrar que, posteriormente, coube ao falante e bem articulado João de Cícero, servir às novas e antigas clientelas que trilhavam pela estrada da extrema, rumo aos inúmeros povoados daquela região.

Imagem de internet.

João de Cícero era famoso na região, camarada receptivo e bom de prosa. Na sua gestão é que as atividades comerciais do local cessaram. Seria Cícero um mau gestor? Não, foi a seca, motivo pelo qual João se viu obrigado a vender tudo e mudar-se para a zona urbana. Indubitavelmente, a extrema era um lugar meio ermo, desprovido de água e energia, além de praticamente despovoada. As cenas corriqueira dali eram as de camponeses consumindo suas energias, descendo e subindo ladeiras, que só terminavam no assentado do João. Era lá que recompunham as forças, visando a alcançar a bifurcação para o Brejinho, Pedra Branca, Matão e Ponte Velha.

Imagem de internet.

 

Imagem de internet.

Hoje, feita essa constatação, os locais então considerados distante à época, transformaram-se em perímetro urbano, absolutamente distintos dos de outrora. O lugar abriga bairros que desenvolvem e crescem aceleradamente, ostentando edificações modernamente projetadas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.