Publicado em 4/3/2026, às 9h27.

Thaise Cotrim – Graduada em Letras (UNASP), servidora pública federal, casada, cristã e colunista.
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Entre o Giz e o Coração
Por Thaise Cotrim

– O que você quer ser quando crescer?
Era a pergunta que eu costumava ouvir na infância.
– Professora.
Respondia com firmeza e segurança.
– Pode ser… mas essa profissão não é valorizada, minha filha.

Dizia meu pai, parecendo querer me induzir a escolher qualquer outro trabalho que fosse financeiramente mais vantajoso.
Não dei ouvidos. Fiz magistério, e aos 19 anos já estava eu, concursada, entrando em sala de aula para lecionar num município de Goiás.

Bairro singelo, a estrada de terra com poeira solta marcava presença todos os dias. Alunos que pareciam não conhecer perfume, exalavam cheirinho de cama e hálito da noite. Comum também era ver os pés encardidos com sandálias de correia e roupas humildes. Pouco importavam as letras grafadas em giz na lousa.

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A maioria dos alunos tinha carinho pela professora “maluquete”, que se vestia de D. Pedro para encenar a Independência do Brasil, falava com energia contagiante e estourava pipoca na sala para ensinar o fonema e a família do P.

No entanto, o que realmente os levava à escola era o lanche. Sem ele, os olhos perdiam o brilho, o estômago protestava e os lábios perguntavam:

– E agora, tia? Só vou comer amanhã?

Com o coração apertado, professores remexiam bolsas e carteiras em busca de moedas e corriam ao armazém mais próximo para trazer um pouco de dignidade embrulhada no papel pardo, numa tentativa de impedir que a fome matasse sonhos.

Das atividades feitas em folha, o atrativo era o cheirinho de álcool do mimeógrafo. Aprendi ali que a educação era muito mais que o ABC e que ninguém aprende sem o “cumê”.

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– Professora, a senhora vai ter que dar um jeito no meu filho. Porque eu não dou conta mais.

Fiquei estarrecida com a fala da mãe daquele que mais impactava na ordem de minhas aulas e respondi devolvendo-lhe uma pergunta.

– Mãe, eu fico com ele só quatro horas por dia… se para a senhora, que convive o tempo todo, já é tão difícil, imagina para mim com mais de 30 crianças?

Este não foi o único caso que tive de desafio, e certamente todos os professores devem ter tido experiências semelhantes.

Para mim, que havia estudado um pouco de Piaget, Vygotsky, Montessori e Paulo Freire, parecia simples educar uma criança.

Até que me tornei mãe… De repente, todas as teorias pareceram ruir, e eu, por muitas vezes, me senti um fracasso.

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Foi então que percebi: teoria educa no papel. Filho se educa com o coração.

Hoje, é cristalina a diferença entre escolarização e educação.

A escola ensina conteúdos, mas é a família que deve ensinar valores.

Na História, fala-se do passado.
Em casa, trabalha-se para construir o futuro.

Na Geografia, localiza-se o mundo pelos pontos cardeais.
Em casa, aprendemos qual deve ser o Norte.

Em artes, apresentam-se cores, tintas e pincéis.
Na vida, é preciso aprender a atravessar dias acinzentados.

Na Ciência, busca-se explicação.
Em casa, ensina-se qual é a razão.

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No Inglês conjuga-se o verbo to be.
Em casa, aprende-se a linguagem do respeito.

Na Educação Física, exercita-se o corpo.
Em casa, fortalecem-se os propósitos.

A matemática soma e multiplica
Mas é na família que se aprende uma nova equação.

Porque nenhuma criança aprende sem errar.
Nenhum professor ensina sem falhar.
Nenhuma mãe acerta todos os dias.

Escolarizar pode ser trabalhoso, especialmente quando as paredes carecem de reparo e os tetos pedem reforma, mas não vamos negar que tem sim o seu valor. O piso poderia ser mais largo, mas sustenta e dá para comparar com um nobre porcelanato acetinado.

Agora, educar em casa … Ah! Isso me parece muito mais desafiador, porque mais que um ano letivo e notas no boletim, educar não termina no sinal. Não tira férias em julho. Os resultados não vêm no fim do bimestre.

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Os resultados vêm na vida.
E, muitas vezes, corremos o risco de não haver recuperação.

Tenho trabalhado para deixar bons cidadãos para o mundo. Mas, quando me vejo falha, já senti vontade de ceder e dar lugar a quem fosse mais competente. Confesso.

Mas, num instante de lucidez, ouvi como um sopro suave:
Filhos não precisam de uma mãe ou pai perfeitos. Eles precisam de responsáveis vivos e presentes.

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Por fim, a lição da vida de quem gerou outra é esta:
Se o português apresenta o BE A BÁ,
É no lar que ensinamos a amar e perdoar.

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