Publicado em 17/3/2026, às 20h20.

NEURODIVERGENTE TAMBÉM É GENTE

Num passado não tão distante, era fácil ouvir frases do tipo:
— Ô menino retardado!
— Até agora? Meu Deus, mas é lerda!
— Aquele ali não tem jeito, é muito atentado. Culpa dos pais.
— Presta atenção, Pedro Bó!
— Fulano? Não adianta, ele é um tobó. Ô bixim tobozado!
— E aquele ali? Se acha melhor que todo mundo. Que menino metido!

Esses são apenas alguns dos adjetivos atribuídos às crianças ou pessoas que saíam do padrão comportamental desejado pelos adultos. Bastava o menino ser mais inquieto e lá estava o não querido “encapetado”, drama de familiares e professores.
Menos problemático era lidar com a menina quietinha, silenciosa, que não dava trabalho. Mas demorava tanto a copiar do quadro e era tão lenta em cada tarefa feita em casa que as palavras sonsa e lerda eram comuns de se ouvir ao se referirem a ela, aquela avoada.
É preciso lembrar que muitos adultos também não estão livres.
— Fulano? Só não esquece a cabeça porque está grudada no corpo.
Os tempos mudaram um pouco. A neurociência avançou e tem apresentado ao mundo acadêmico as diversas nuances e a diversidade no funcionamento cerebral dos indivíduos.
Me atrevo a dizer que, assim como há diversidade nas matizes da cor dos olhos, cada cérebro tem um funcionamento singular.
Separados em típicos e atípicos. Estes se dividem ainda mais. Há os que parecem processar o mundo em câmera lenta e os que correm a mil por hora.

Muitos simplesmente não sabem viver dentro da caixa quando a cultura lhes exige enquadramento.
Pensamentos fora da casinha, conduta fora do padrão… o atípico parece viver em um mundo conduzido por quem pensa em linha reta.
Para alguns, o barulho apunhala a paz.
O contato físico é desnecessário.
Olhar nos olhos, pra quê?
Para outros, o pensamento é mais rápido que a capacidade de filtrar palavras e, quando percebe… putz! Já falou mais do que devia.
Impulsividade é mato. Procrastinação e disfunção executiva são facilmente rotuladas como irresponsabilidade ou preguiça.
Mas, curiosamente, com pouco tempo disponível, esse mesmo ser pode executar feitos admiráveis.
É criativo, mas vive, muitas vezes, sob a sombra da síndrome do impostor.
Sempre perdido nos próprios pensamentos, pode atravessar uma aglomeração de conhecidos… e não ver ninguém.
Haverá quem o julgue amostrado? Sim.

Haverá quem olhe para alguma criança e veja apenas um ‘pequeno gênio’, esquecendo que por trás da genialidade pode haver um sentimento de não pertencer a lugar nenhum e uma cobrança interna esmagadora.
Há também dores invisíveis.
Alguns carregam uma sensibilidade intensa à rejeição. Um olhar desviado, uma resposta atravessada ou um silêncio inesperado podem ser mal interpretados. E o que para muitos seria apenas um detalhe passa a doer fisicamente. É como se o coração levasse uma facada e o cérebro disparasse sirenes que ninguém mais ouve, mas, ao ver o alerta vermelho, dispara:
— É vitimismo!

Dificuldades com leitura ou números não impedem quem tem dislexia ou discalculia de possuir boa imaginação e forte pensamento visual.
Aliás, quantas inteligências existem além daquelas medidas por provas escolares que se baseiam quase exclusivamente na memorização?
Alguns diagnósticos chegam tarde. Chegam quando a alma já está cheia de cicatrizes e depois de muitos travesseiros molhados por incompreensão.
E antes deles, quantos rótulos e rejeições já foram distribuídos no universo contra outros seres da nossa própria espécie?
Penso que o diagnóstico não é muleta.
Ele é um mapa.

Um mapa que ajuda alguém a entender caminhos que sempre pareceram confusos ou uma chave para libertar do cárcere de culpa por ser quem sempre foi: “esquisito”, chato, ou apenas, diferente.
E se pensássemos com mais empatia?
Sempre ouvimos dizer que “de louco todo mundo tem um pouco”.
Apesar de parecer engraçada ou inofensiva, essa frase muitas vezes acaba desqualificando quem, de fato, vive uma atipicidade.
Todos podem se esquecer de algo às vezes.
Diferente de quem convive com um transtorno que pode trazer prejuízos e viver dramas por uma vida inteira. Isso não é fazer dramas.
Todo mundo se incomoda com mudanças de rota.
Mas o autismo, por exemplo, pode envolver uma necessidade profunda de previsibilidade.
O que muitos interpretam como falta de fé ou pouca força de vontade talvez seja apenas uma questão neurobiológica, algo que não se resolve apenas com pensamentos positivos.
Alguns cérebros funcionam como meu computador, um Intel Core i7.
Outros parecem se alinhar mais ao Mac do meu marido: lógica diferente, outro sistema, outro modo de processar o mundo.

E confesso: levei anos para perceber que talvez o meu próprio sistema também não fosse exatamente o padrão.
Se de louco todo mundo tem um pouco, então não deveria ser tão difícil compreender a limitação do próximo em ser perfeito … e em não caber dentro das nossas próprias expectativas.
Pode parecer utópico, mas eu sonho com uma regra universal.
Uma frase simples que ouvi certa vez do professor Amim Rodor, pai de um anjo portador do “cromossomo do amor”.
Ele dizia que, em sua casa, havia uma lei:
“Para pessoas limitadas, amor ilimitado.”
Talvez seja exatamente disso que precisamos: menos rótulos, menos julgamentos apressados e mais disposição para compreender que nem todo cérebro caminha pelos mesmos trilhos.

Porque o neurodivergente, apesar das limitações apontadas pela régua da sociedade, também é gente.
E o amor…
Ah! O amor…
Este é capaz de cobrir multidões de “erros”.
E talvez seja a única medida realmente justa para todos nós.






