Publicado em 29/3/2026, às 16h16.

Antonio Rocha.
Possui graduação em Filosofia pela PUC Goiás, graduação em Direito, Licenciatura em História, Curso Seminarístico de Filosofia pelo Instituto de Filosofia/teologia de Goiás, Curso livre em Teologia (1993), especialização em Filosofia Clínica, e mestrado em Ciências da Religião pela PUC Goiás. Ex- Professor efetivo da PUC Goiás, foi professor convidado do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás.

O CRUZEIRO DOS PADRES E A ESPERA DO FIM DO MUNDO, NO CORAÇÃO DO PARQUE
Por Antonio Rocha

Imagem ilustrativa

Foi nas terras doadas, certamente em gratidão à Santa e às dádivas do céu que acudiram nas horas do “deus amém”.  Justo naquela porção é que um dia ergueram, com garra, força e fé, o símbolo do Crucificado. A partir de então, alimentaram a esperança nos livramentos da fome, da peste e da guerra. Para lá acorria multidão de desesperados, de crentes abnegados e de todo tipo de gente suplicando, agradecendo, sonhando com a cura, com a prosperidade e com o livramento das tragédias naturais. Suplicavam, igualmente, pela amenização da frequente e severa estiagem que se fazia acompanhar da impiedosa insolação. Água? Tão somente o suor do rosto que jorrava às bicas. 

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Clima seco, solo árido e absolutamente desidratado, ambiente propício à erupção de pragas, insetos e moléstias em geral. A natureza parecia inclemente e vingativa, retribuindo alguma provável agressão que sofreu, exatamente aos mais vulneráveis desvalidos. Mas a fé repousava nos pés do cruzeiro, na reza para o santo, e o pouco de água disponível servia exclusivamente para aspergir a Cruz santa. Cruz que multiplicava pingos e derretia nuvens, precipitando a chuva, sobre justos e pecadores. E lá foram-se dias, meses, anos, décadas e séculos, mas o Cruzeiro continua e permanece lá no alto, retraído no interior da selva, em meio ao mato e todas as espécies de viventes da fauna. 

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Há relatos, pendentes de confirmação, segundo os quais multidões passaram a noite em sentinela aos pés do Cruzeiro, aguardando o fim do mundo.  Ocorre que a lendária crença de que a virada do milênio seria o apocalipse definitivo, permanecia viva na cabeça de muita gente do planeta. Temerosas, mas contritas, algumas famílias se programavam para a chegada do fim dos tempos, pondo-se em oração aos pés do Santo Cruzeiro. No dia anterior assaram bolos, petas, biscoitos e brevidades, além de repararem chás e cafés, para o grande retiro da virada do século. Um beato informante da cidade, embora tivesse guardado muitas anotações sobre tal fato nos seus arquivos, não soube, entretanto, informar se tal fato ocorreu por ocasião da virada do ano de 1889 para 1900.  

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Sabe-se apenas que o povo de Correntina, em nome da fé e impulsionado pelo medo do fim dos tempos, ou do fim do mundo onde tudo se acaba, um dia teve a iniciativa de ali acampar e, resignadamente rezando, esperar e presenciar o ocaso global. Num paralelo com a narrativa do ocorrido no Monte Tabor, passaram dias rezando e jejuando até a virada do século, porém o cataclismo não se confirmou. Mas o tempo dos peregrinos não restou perdido, já que segundo o provérbio popular, é melhor prevenir do que remediar! De qualquer maneira o Cruzeiro, desde então, passou atrair mais multidões. Comenta-se que após o tal fato a população habituou-se a volver as atenções para aquele lugar, a ponto de, perante qualquer ameaça que eventualmente colocasse o povo em perigo, os olhares voltavam-se para a direção da extrema. Dizem que à noite via-se luz lá no alto, como que a mostrar o caminho a seguir.

Foto do Cruzeiro – Localizado na praça São Lázaro
Foto do Cruzeiro – Localizado na praça São Lázaro
Foto do Cruzeiro – Localizado na praça São Lázaro

Não há dúvidas de que o Cruzeiro dos Padres guarda muitas histórias e memórias. Até hoje, mais de vinte anos da virada do último milênio, de vez enquanto pessoas adentram a mata, percorrem a trilha, chegam e prostram-se diante do Cruzeiro. Ali se benzem, penitenciam, descarregam culpas e voltam leves, prontos para uma nova jornada. Aquele símbolo de fé transformou-se num verdadeiro centro místico, local onde transbordam misericórdia e compaixão. E é exatamente na sexta-feira da paixão que os penitentes sobem o morro, na esperança de transfigurar-se, após a penitência e a expiação das culpas. A propósito desta história é que as Santas Missões dos Padres Católicos sempre privilegiaram aquele lugar, resgatando a sua memória e revitalizando a sua dimensão simbólica como espaço sagrado.

1 COMENTÁRIO

  1. pra uns transmite fé. outros dores outros sentimentos, por ai vai! certo que esse próprio aí quase saiu do mapa com a chegada do asfalto , visto que quase toda obra da igreja é bem no meio da rua , com o cruzeiro não foi diferente. ficava ocupando metade e por isso foi retirado pra um lado em outros tempos..rs contos e fatos .. boas lembranças e histórias temos ao pé do cruzeiro.

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