Publicado em 14/06/2023 às 08h55

Colunista Teoney Guerra

Família de Otaviano mantém a tradição dos Arvoredos em Correntina

Há 77 anos, o menino Antônio Pereira dos Santos, apelidado de Tonho Corujinha, completava o seu primeiro ano de vida, e o pai, Otaviano, que dera o nome ao filho em homenagem ao Santo da sua devoção, fez o primeiro Arvoredo como comemoração do aniversário.

Foto: Taquira Guerra

Transcorria o ano de 1946, e tinha início um festejo que é um dos mais antigos e tradicionais da cidade: o “Arvoredo de Otaviano” – já falecido -, que ainda hoje, através dos seus descendentes, anima as noites de 13 de junho em Correntina.

A ida ao mato logo cedo, a escolha da árvore e o seu corte, depois, a “levada” por um grupo de homens e rapazes, em desfile, pelas ruas da cidade, até a frente da casa onde é realizado o festejo, foi, por todos esses anos, a parte inicial dessa festa tradicional.

Produção: Tatson Brandão.

A partir daí, a árvore fica sob os cuidados das mulheres, que enfeitam a sua copa com bandeirolas, e nos galhos penduram bandeiras com dinheiro em cédulas, utilidades domésticas, brinquedos, peças de adorno, e outros brindes, transformando-a no Arvoredo a ser “queimado” à noite.

Pelo fim da tarde, caracterizado, o Arvoredo é novamente entregue aos homens, que o enfincam no chão – a rua agora asfaltada, já tem o buraco onde o arvoredo é enfincado – e, depois de levantado com vivas ao santo e muitos foguetes, o seu tronco é como que “abraçado” pela fogueira que é armada, a ser queimada, na parte final da festa.

Por toda a tarde, na cozinha e no terreiro, as mulheres fazem os biscoitos e doces, matam frangos e galinhas, fazem farofa. Enquanto na sala principal, outro grupo arma o altar para ser rezada a ladainha – a reza ao santo. Trabalho que tem a participação de muita gente: parentes, vizinhos e vizinhas, amigos e amigas da família.

Foto: Taquira Guerra

Quando é a noitinha, tudo está pronto para a homenagem ao santo, famoso por dar sempre uma ajudinha em muitos casamentos. Homenagem que ocorre mais tarde.

Depois da janta, tudo arrumado dentro e fora da casa da festa, vão se achegando as mulheres rezadeiras, que se acomodam nas cadeiras e bancos, dentro da casa, enquanto os homens e também mulheres, adolescente e crianças assistentes, se reúnem do lado de fora, se esparramando nas calçadas e pelo meio da rua, já interditada. Uns olham os objetos pendurados nos galhos da árvore, toda enfeitada, observando o que pretendem “avançar”. Enquanto outros conversam animadamente. Fogos de artifício explodem no ar, iluminando o céu, enquanto bombas e traques explodem no chão.

Não demora e, dentro da sala, velas são acesas, iluminando o altar, onde, entre muitas flores, se destaca a estatueta do Santo Antônio. E a ladainha começa com o cantar e o rezar de vozes, na grande maioria de mulheres. Orai-pro-nóbis, rogai por nós, ave-marias, salve-rainhas e pais-nossos sucedem, ora em cantos, outras vezes em forma da oração costumeira. Enquanto na rua, o povo se aglomera, solta mais fogos, bombas, traques.

Foto: Louro de Manim

Antes de findar a ladainha, é acesa, lá fora, a chama na fogueira. E o fogo não demora a se alastrar na madeira seca, queimando a seguir, o tronco da árvore. Aos poucos, o calor do fogo vai se propagando, e assim, aquecendo toda a área entre uma calçada e outra, e todo o entorno, já ocupado pela multidão.

Dentro da casa, a reza termina, então a comida é servida em bandejas e pratos, acompanhada por copos com café. Algumas pessoas que estão na calçada, ou próximas da porta entram no recinto e são também servidas, num breve tumulto que tem fim em alguns minutos. Algumas mulheres saem levando vasilhas com comida para casa, ou algum parente que não pôde vir à reza e à queima do arvoredo.

Barriga cheia, é chegada a hora de sair, assim, a casa fica quase que vazia, e as atenções se voltam exclusivamente para a rua, onde o fogo queima a fogueira e o tronco da árvore; rapidamente o caule perde a seiva que o mantinha verde, vivo, e se torna em brasa, parcialmente encoberto por uma camada de cinza, esbranquiçada. O tempo parece transcorrer lento, para a multidão ansiosa, nervosa, que impaciente, parece estar esperando por aquele momento há um ano, desde o fim do festejo do ano anterior.

Foto: Louro de Manim

Enfim, o tronco não resiste ao fogo e perde o vigor, balança e rapidamente cai, aos gritos e assovios da multidão em êxtase. Parte do povo, que se concentra do lado para o qual o Arvoredo pende e cai a seguir, se lança sobre a copa, que perde as folhas e galhos, com cada pessoa tentando arrancar o objeto que desejava. Tapas, murros nas costas, puxões de cabelos e de roupas se seguem, e em poucos minutos, a algazarra se desfaz, com muitas pessoas exibindo como troféus os objetos que conseguiram pegar. Outros saem descontentes, desapontados, por não terem conseguido o que intentavam.

Mais gritos e assovios tanto dos que “avançaram” quanto dos assistentes marcam a comemoração final de mais uma noite de Santo Antônio. O festejo tradicionalíssimo, iniciado pelo patriarca da família Pereira dos Santos de Correntina, o Otaviano, que já sobrevive a três gerações. Após a morte de Otaviano, em 1976, mantido pelos filhos Geraldo e Tonho, e após a morte deles, respectivamente em 2009 e 2014, mantido por Helber, mais conhecido como Maradona, filho de Geraldo.

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