Publicado em 04/06/2025 às 07h29.

Antonio Rocha.
ANTÔNIO ROCHA: Graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Curso livre em Teologia, especialização em Filosofia Clínica, pelo Instituto Packter e mestrado em Ciências da Religião pela PUC Goiás.

O MAJOR FÉLIX E A SUA ESTRATÉGICA LEITURA DO JORNAL

Foto: Major Félix.

No dia de hoje resolvi fazer o resgate de fragmentos da biografia de um excepcional estrategista político. Refiro-me a uma das mais longevas e conhecidas lideranças políticas de Correntina e região. Conforme registros históricos, o Major cultivava o hábito de sentar-se, diariamente, numa cadeira posicionada em frente à sua residência, para ler o jornal.

Foto: A casa do Major é a primeira da esquerda.

Não sei exatamente se lia jornais do dia, ou eram notícias atrasadas. O certo é que ele exibia elegância e se ocultava por trás das páginas do diário de notícias. Nele, o Major Félix se escondia nas entrelinhas, ou seja, por entre as páginas do periódico. Ignoro, também, as manchetes e o conteúdo noticioso de sua preferência. Mas posso afirmar que, vez por outra, o Major apontava com a cabeça para acima, os olhos paralelos à linha horizontal superior do caderno de notícias, de onde se principia, normalmente, a leitura de qualquer jornal. Era como se fosse um pato mergulhão brincando na lagoa. Ora mergulhava-se, ora emergia-se. Metaforicamente, falando, exatamente dessa forma agia o caudilho.

E eu que, invariavelmente, achava que o major lia na porta da rua com o fito de incentivar o povo à leitura, fui me desiludindo. É óbvio que o Major não agia ingenuamente, pois se beneficiava de uma vista privilegiada. Morando no alto da praça da matriz, para onde a maioria das ruas convergia-se, ele tinha o privilégio de observar tudo quase tudo, sem ser observado. Desta forma, o intendente/prefeito mantinha um olho nas letras e o outro nos passantes, posto que muitos passavam praticamente à porta de sua imponente residência.

Foto de 2012 da casa do Major Félix.

Avalio se tratar da mais charmosa e portentosa residência do conjunto arquitetônico de Correntina. Pois bem, o Major continuava alternando-se entre a leitura das notícias, fingindo entreter-se com o jornal, e observação aos transeuntes. Ao anoitecer, o Major era capaz de fornecer um relatório completo sobre os acontecimentos do dia.

Foto: Casa do Major (centro) em 2024,

Sua excelência informava sobre quem chegou e quem partiu, quem comprou e quem vendeu, quem foi preso e quem foi solto. Há quem arrisque a dizer que o Major sabia da vida de muitos e dos nomes de quase todos os habitantes. Seu perfil era de observador, matreiro, perspicaz, esperto, inteligente e hábil. Dava a impressão de que teria flertado com a filosofia maquiaveliana. Como político, ele sabia que a ciência de governar era manter-se informado, por todos os meios, com o objetivo de se antecipar a qualquer evento e evitar surpresas.

Foto: Vista da casa do Major.

Neste aspecto, o major era habilidoso e, para se consolidar, utilizou-se de muitos meios. Inicialmente, valeu-se de recursos, como: emissários, telégrafos, correios, rádios e jornais. Tudo aconteceu numa época em que ainda não havia as mídias sociais, nem a inteligência artificial. Enquanto isso, Félix mantinha “uma no cravo e outra na ferradura.”

Foto ilustrativa produzida por IA.

 

Macaco velho, ao se esconder por trás do jornal, o Major fazia duas coisas ao mesmo tempo: um olho nas notícias e o outro no movimento do povo. Ele sabia e detinha todas as estratégias. Mas pudera… Conta-se que o mesmo fora vítima de várias emboscadas, razão pela qual aprendeu a se prevenir.

Foto ilustrativa produzida por IA.

Mas a velhice foi chegando, o corpo fraquejando, os olhos adoecendo e encurtando a visão. É fato que o Major causava espanto e admiração, ao ler sem óculos, embora já avançado na idade. A partir de então, o velho político passou a ler as pessoas e não mais as letras. Ele ouvia tudo atentamente e anotava na sua poderosa memória para manter o seu governo de pé.

2 COMENTÁRIOS

  1. Mais um bem escrito texto vosso, Antônio Rocha de Souza, com todos os atributos de seu estilo leve, cativante e bem-humorado, sobre aspectos da memória de Correntina – agora, referindo-se ao Major Félix Tobó (patente comprada), uma figura autoritária e caricata, da “história” de Correntina.
    Quanto à estratégia de Félix Tobó, tendo como pretexto “leitura” de jornal à frente de sua casa, para a observação e controle da vida da corrutela, conheço uma outra versão, mais engraçada e que é a mais difundida e conhecida pelos correntinenses. Esta versão me foi contada por uma antiga pensionista dos Gerais, que passou a residir em Correntina, e pelo único autêntico matemático e professor universitário, filho da terra. Diz a citada versão, que a leitura do jornal pelo Major Félix Tobó à frente de sua casa era motivo de chacotas, zombarias, risadas e comentários ridicularizadores de sua figura e “autoridade”. Pois, além de toda a corrutela saber que Félix Tobó era analfabeto, ao invés de observar sorrateiramente por cima das folhas do jornal, ele, na verdade, o fazia através de um buraco que atravessava todas, ou apenas algumas, folhas do jornal que fingia ler. Dizem as más línguas, que os que passavam na calçada onde o Major praticava a sua estratégia ridícula, percebiam que ele estava a “ler” o jornal, de cabeça para baixo! 😂

  2. Meu Caro Antonio Rocha,

    Embora não tenha tido o privilégio de conhecer pessoalmente o Major Félix, tive a oportunidade de ouvir histórias e relatos sobre sua vida e liderança através de pessoas insignes de Correntina e Santa Maria da Vitória, como: Claudionor Rocha, João Diamantino, Liozírio Ferreiras, Teófilo Guerra, Vanderlino Araújo, Pe. André Berenos, Manoel Cruz, Tito Soares, Louro de Maninho e Louro de João de Lino. Essas histórias me permitiram vislumbrar a figura de um estrategista político excepcional, que soube se manter informado e antecipar eventos com habilidade e inteligência.

    A descrição do Major Félix, descrita pelo ilustre Antonio Rocha, lendo o jornal na porta de sua residência, enquanto observava os passantes, é um testemunho de sua astúcia e habilidade política. Ele sabia que a ciência de governar era manter-se informado por todos os meios, e utilizou-se de recursos como emissários, telégrafos, correios, rádios e jornais para se manter atualizado.

    A passagem do Major Félix de ler as letras para ler as pessoas, à medida que envelhecia, é um exemplo de sua adaptabilidade e capacidade de se ajustar às circunstâncias. Ele continuou a se manter informado e a governar com eficácia, mesmo com a visão enfraquecida.

    É fascinante ver como o Major Félix é descrito como um líder que sabia se antecipar a eventos e evitar surpresas, utilizando-se de sua inteligência e habilidade política para manter seu governo de pé. Sua história é um exemplo de liderança eficaz e estratégica, tão custosos, difíceis ou faltantes nos que se dizem ou se arvoram a ser políticos nos dias de hoje.

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