Publicado em 12/4/2026, às 12h12

Antonio Rocha.
Possui graduação em Filosofia pela PUC Goiás, graduação em Direito, Licenciatura em História, Curso Seminarístico de Filosofia pelo Instituto de Filosofia/teologia de Goiás, Curso livre em Teologia (1993), especialização em Filosofia Clínica, e mestrado em Ciências da Religião pela PUC Goiás. Ex- Professor efetivo da PUC Goiás, foi professor convidado do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás.

A BARRAGEM DO RIO DAS ÉGUAS E A SUA MAGIA.
Por Antonio Rocha

O rio corria tranquilo, ladeira abaixo, brincando de fazer curvas, alternando o ritmo da velocidade. Noutros momentos, movendo-se em círculos até formar redemoinhos d’água. O povo chamava isto de remanso. Foi assim que conheci o Remanso do Estreito, popularmente Remansão, além de outros como: o Remanso de Bazu, o Remanso de Celso e, por último, o Cabeludo da Véia Loura. O rio ia, dessa forma, brincando de fazer espumas, devido ao atrito da água sobre as pedras. Cada batida, um salto espumante desmanchando-se no ar, como gotículas de neblina a formarem um véu de orvalho em tempo de cerração.

Foi num desses grandes saltos, denominado queda d’água ou cachoeira, que aqueles homens de fora resolveram construir uma represa. Ali, exatamente ali, nasceu a Usina de força elétrica que, mais tarde, veio a ser chamada Hidrelétrica de Correntina. Ela substituiu a iluminação artesanal à azeite, que alimentava as lamparinas dependuradas nos postes de aroeira. Enquanto isso, as águas iam correndo e brincando e, nessa brincadeira, foram represadas no ponto da queda, antes de chegarem ao povoado Cerco. Foi lá que nasceu a barragem, executada pelas mãos de homens e com o auxílio de máquinas.

Águas iam rodopiando e, de tontas, quase sopitavam pelas bordas dos canais. Aliás, em alguma parte ainda sopitam, mas apenas quando os homens querem ou quando a natureza derrama chuvas torrenciais no extremo da cabeceira. Fato é que mexeram com o rio, cirurgiaram o seu corpo, interferiram em sua coluna e invadiram as suas entranhas. Tal intervenção alterou, substancialmente, o seu jeito de andar. Mas o herói persiste na predisposição natural de continuar, a tudo custo, a própria jornada.

Acompanhado do projeto da barragem, vieram homens, máquinas e dinheiro e com isso, a cidade se encheu de esperança. Incontestavelmente, aquilo constituía-se no prenúncio de pão na mesa e sorte para as moças na fase de casamento. Interessante é que, além de animar a Vila que já ostentava status de cidade, muitos casamentos foram ajeitados e muitas famílias foram constituídas. Isto porque, jovens que vinham prestar serviço à companhia de eletrificação, casavam-se e permaneciam por aqui. Assim, os vínculos afetivos iam se ampliando, até mesmo pela via dos laços de compadrio.

Terminada a obra de edificação, que compreendem o represamento, a montagem de turbinas e a geração de energia, muitos operários iam embora, enquanto os outras qualificações, ficaram para dar sequência à manutenção do grande feito da CODEVASF. Desde então, Correntina se tornou uma das mais importantes cidades da região, gerando e abastecendo as demais, com a energia produzida das próprias entranhas.

Dessa forma, a euforia e o encantamento dos correntinenses eram de ordem, que todos os funcionários da COELBA, o técnico ao engenheiro, do leitor dos relógios ao apontador, com exceção do porteiro e do guarda, passaram a ser chamados de doutores. Talvez por isso os funcionários da Usina arrumavam casamento fácil na cidade. Sim, porque em razão de seus cobiçados postos, presumivelmente representavam a garantia segura da manutenção da prole.

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