Publicado em 25/4/2026, às 20h20.

Thaise Cotrim – Graduada em Letras (UNASP), servidora pública federal, casada, cristã e colunista.

NEM SANTO, NEM VILÃO
O recorte não é a história

Lá pelos povoados de um interior não tão distante, ele facilmente receberia o apelido de Pedão. Eu prefiro chamá-lo pelo sobrenome: Rocha.

É um conhecido nosso. Morava num vilarejo de chão com terra batida, desses onde o povo sabe mais da vida alheia do que da própria, e onde a água larga abraça a rotina e de lá se colhe o sustento.

Imagem ilustrativa – Vilarejo.

Qualquer pessoa que perguntasse sobre um tal sujeito chamado Rocha poderia se deparar com respostas que revelariam uma dualidade surpreendente.

— “Aquele ali? Pavio curto! Nem vi quando ele puxou o canivete pra mim!”, diria um trabalhador, ainda indignado com a cicatriz da orelha cortada.

— “Ele é um mentiroso!”, diria uma mulher, “conheço bem o tipo. Jurou de pés juntos que não conhecia o melhor amigo na hora do arroxo. Eu que não confio… Rum, ai, ai.”

Imagem ilustrativa – Julgamento

E eles teriam razão. Havia fatos e evidências para fazê-lo.  Pobre Rocha, não sei qual seria minha reação ao me deparar com as mesmas circunstâncias.

Quem sofreu com seus disparates tinha motivos de sobra para adesivá-lo apressadamente com os piores adjetivos. Mesmo quem não tivesse visto tais fatos, depois de uma campanha difamatória (ou não), ficaria sabendo sobre o Rocha agressivo, o Rocha covarde, aquele que agia por impulso, falava sem filtro, feria sem pensar e reagia como quem tenta defender o que considera injusto.

Mas o ser humano transborda qualquer caixinha rotulada.

E a vida de Rocha, inquieta e teimosa, jamais aceitaria caber nos comentários rasos de quem fala mais do que procura compreender e se recusa a atravessar sua história por inteiro.

Se você andasse mais um pouco pelas ruas poeirentas, algum tempo depois, do outro lado do rio, encontraria quem contasse histórias bem diferentes:

— “Ele estava quebrado, não tinha um tostão para me ajudar, mas me fez levantar como ninguém mais tinha feito”, diria um homem em Formosa.

E talvez ouvisse também dona Bita, uma costureira:

— “Pela voz dele, meus olhos se abriram como quem desperta de um sono sem sonhos. Voltei… e terminei a colcha de afetos que eu vinha tecendo no coração de cada um que bate à minha porta”.

Imagem ilustrativa – Vila Feliz

— “Óia essas roupas que dona Bita fez um tempo atrás… e essas aqui ela costurou depois que seu Rocha trouxe ela de volta pra gente, tudo de graça”, diria uma viúva do povoado, com os olhos marejados.

Rocha não era médico ou curandeiro, mas sua sombra era refrigério de verdade e, não sei como, detinha uma “medicina” descomunal. Além disso, também era bom nas palavras.

Outro dia, depois de um grande evento na região, seu nome correu solto:

— “Nem terminou os estudos, como pode falar com a voz carregada de um fogo que não consome? Ele acende esperança no peito e aquece a alma de quem o ouve”, poderia ter falado alguém no meio da multidão, com os olhos acesos de espanto.

A grande verdade é que o Rocha é a gente.

Uma mesma pessoa pode ser bem ou mal referenciada a depender da experiência que o emissor da mensagem teve com ela.

Um dia a gente é pedra que, arremessada com rancor, voa na vidraça e machuca. No outro, somos a pedra do alicerce que segura a casa em pé em meio a vendavais.

Imagem ilustrativa – A pedra

É importante saber quem somos. Mas é deprimente perceber como, tantas vezes, escolhem destacar o pior recorte … Repetir, ampliar, propagar e fazer acreditar como se ali coubesse uma vida inteira ou toda uma reputação.

Pensando nos contextos em que a humanidade se insere, fiquei me perguntando qual teria sido o segredo do ímpeto personagem real da vez.

Talvez tenha sido encontrar alguém que não se deteve na ferida. Alguém que, em vez de apontar o erro, escolheu permanecer. Que perdoou, consertou o que era possível, e, diante de brasas, preparou alimento, favoreceu o diálogo e procurou insistir no amor.

— “Tu me amas?”.

Rocha provou que sim e permaneceu entre seus seguidores.

Imagem ilustrativa.

Desde então, tenho entendido que nem todo olhar, por mais profundo que pareça, enxerga de verdade. O burburinho silencioso nos olhares em qualquer recinto não diz quem somos. Para mim, apenas ecoa uma verdade ignorada e revela quem nunca se dispôs a nos considerar por inteiro.

Há quem foque um recorte. Há quem atravesse a história.

E, no fim, quem sabe seja isso que nos sustente: não o que disseram sobre nós, mas sobre quem permanece quando muito de nós parece ter sido interpretado da pior forma…

Talvez, por isso, seja prudente escolher melhor o olhar, deixar os julgamentos baseados em opiniões pessoais ou alheias de lado e procurar enxergar o outro inteiro.

Afinal, na vidraça da vida, todos somos feitos da mesma mistura: um pouco de marcas embaçadas, um tanto de busca por acertar e a eterna esperança de que, mesmo imperfeitos, ainda possamos ser passagem de luz, nem que seja para o escuro de alguém.

1 COMENTÁRIO

  1. Thaise Cotrim brinda-nos com: – NEM SANTO, NEM VILÃO —

    Rocha cortou orelha, mentiu, agiu no impulso. Mas também levantou caído, curou ferida, acendeu esperança.

    A mesma pedra que quebra a vidraça é a pedra que segura a casa no vendaval.

    Thaise usa “Rocha” para lembrar: ninguém cabe inteiro num recorte. Julgar é fácil. Atravessar a história dá trabalho.

    No fim, o que salva não é o que falam de nós. É quem permanece quando só enxergam nosso pior.

    Na vidraça da vida, somos todos vidro embaçado. Ainda assim, podemos ser passagem de luz.

    Parabéns pelo belo texto!

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