Publicado em 30/4/2026, às 12h12

MEXA-SE PELA VIDA
No seu ritmo, mas sempre em busca de algo
Sempre me imaginei numa corrida de rua, mas, o fôlego era curto e o preparo físico…Bom, você sabe como é: Aquele sonho que a gente guarda na gaveta e esquece de tratar.
Até que vi o anúncio:

Senti ter encontrado a oportunidade perfeita para tirar a poeira do tênis e estrear a possibilidade de passear pelas ruas acelerando o coração e oxigenando ainda mais os pulmões.
No dia marcado, à beira do rio, onde as correntezas entoavam o som e o raiar do sol apagava o restinho de noite, os participantes foram chegando.
Sob a condução do mestre, todos alongaram os músculos. Havia um povo fardado, o estilo era diferenciado. Saltavam, elevavam intercaladamente os joelhos fazendo semicírculos no ar, tipo atletas de verdade. Uma simples caminhada não caberia em seus preparos. Não coube.




Na largada, o primeiro pelotão foi a “tropa de elite” ou todos aqueles que participariam da corrida. Roginho se aventurou a ir junto. No início da prova, foi ultrapassado pelos amigos como quem risca um fósforo, mas manteve ritmo, economizou fôlego e sustentou o passo.
Enquanto isso, seguia o segundo pelotão, aqueles que saíram de casa apenas para caminhar e concluir um percurso. Eu estava ali.
Na teoria, era caminhar ou correr.
Na prática… teve gente que não se conteve.
Uns largaram com tudo e perderam o fôlego antes da primeira esquina. Outros começaram devagar, correram no meio e terminaram quase nas últimas.
Enquanto os pedestres iam, a nata dos corredores já estava voltando. Gil Bahia foi o primeiro a ser visto de lá pra cá. Liderava a prova masculina. Cida, mesmo sem pernas alongadas, era a primeira mulher que vinha resgatando fôlego ao subir correndo uma ladeira. E, entre outros corredores, logo atrás… Roginho.

Inexplicavelmente, ele parecia ser o primeiro dos “não profissionais”. Deve ter variado o ritmo, mas não parou. Passou pelos amigos que antes o tinham ultrapassado. A esta altura ele recebeu gritos de incentivo do outro lado. Mas, perto do fim, o cansaço bateu. Foi quando avistou uma corredora elitizada pela camiseta verde.
– Perder pra mulher fica feio. Sussurrou o cérebro em seu momento mais equivocado e machista.

Não foi bonito, mas serviu de combustível. Chegaram praticamente juntos. Ela foi pódio. Ele não.
Minutos depois chega o pessoal da caminhada, fazendo graça. Eu mesma falava com o senhorzinho sentado junto ao portão da casa. “Bora seu zé!”. Ele ria e acenava… O carro de um conhecido passava e disparava a buzina. Eu gritava: “Encosta e vem”.
Sem querer, eu puxava o ritmo de várias pessoas. Ouvi alguém dizer:
— Não posso ficar atrás de Thaise.
Às vezes, a gente vira referência sem perceber.
Pelo caminho, havia casais de mãos dadas, outros em fase de flerte, sabe? Era fácil ver amigas aproveitando o tempo para colocarem os assuntos em dia. No meio do papo, algumas até encurtaram trajeto, mas abafa o caso!
O ritmo empolgante do carro de som que seguia a rota parecia distribuir pílulas de energia que facilmente faziam as pernas saltitarem no mesmo compasso.
Já quase no meu final de prova, entre uma passada e outra, com os pés no chão e os pensamentos mais altos, me dei conta de que a vida é esse asfalto interminável. Estamos todos ali, cada um no seu compasso, alguns correndo como se estivessem fugindo, outros, apenas para passar alguém. Há também quem caminhe só pra não cair. A diferença é que na prova a linha de chegada é clara; na vida, às vezes não nos atentamos ao mapa e entregamos todo o nosso fôlego para algo que sequer garante boa recompensa.

Para minha surpresa, alguns pedestres que dispararam a correr na frente erraram o caminho. Quase não acreditei quando percebi estar entre as primeiras colocadas. Segundo lugar.
Medalha no peito, pódio inesperado e pose pra foto. Nem sabia que teria premiação. Mas creio que nada supera as boas companhias, risadas do caminho e as lições da experiência.
Perguntei a uma atleta se a prova tinha sido boa. Ela respondeu empolgada balançando a cabeça afirmativamente:
— Demais. Consegui pódio!
Roginho poderia receber troféu se caminhasse com a maioria, mas escolheu correr com os melhores e ganhou algo que não se entrega em qualquer pódio: a superação e a certeza do que é capaz.
No meio disso tudo, ouvi dizerem:
— Sem movimento não há vida.
— Cuidado… isso vira vício. Daqui a pouco você tá comprando tênis caro, dormindo cedo, cuidando da alimentação…
E eu pensei cá com meus cadarços e quilos excessivos: “é esse tipo de vício que eu quero pra mim”.
A mensagem que decifrei do evento promovido foi que cuidar do corpo também é uma forma silenciosa de amor próprio e de honrar a quem amo.
No fim, aquela prova terminou. Mas a corrida… ainda não.











