A liutria do dizingonzal

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Louro de Maninho era um cara totalmente “dizingonzal”, cheio de “liutria”, mas ninguém ali sabia o que era isso, para explicar de verdade, quando um ou outro curioso perguntava. Apenas o dicionário prático das gozações e brincadeiras definia empiricamente. Quando Louro chegava, era um tal de “dizingonzal” pra lá e “dizingonzal” pra cá e assim nas rodas de bate-papo todo mundo virava esse tal de “dizingonzal”.  Nem era preciso explicar que ele era filho de Maninho Caganete, que o folclore de lá conta que um dia sonhou parindo e acordou todo obrado, para os de lá “cagado”, e o sujeito ainda foi contar pros outros. O apelido, claro, pegou.

Liutria é diferente de alguma coisa perto de lutrimento, coisa assim como se se pudesse dizer inocentemente depravada. Explico: quando Paulilo de Roseno topou sozinho com Nêga Rosa, uma caboclinha da “ponta da rua”, lugar de gente fraca, sem posses, beirando seus 17 anos de idade, ele a chamou para “fazer imoral”. “Vou não, mode doer”, respondeu ela, caçando jeito de correr para longe de uma vida corriqueira para as meninas como ela, porque sabia que aquele ato de lutrimento, casado com a liutria, certamente a mandaria para uma outra vida e a transformaria em uma “mulher da vida”. Ela não entendia isso direito, é claro, mas se acostumou com todo mundo chamando aquelas mulheres, que trabalhavam as carnes no brega e do cabaré, de “mulheres da vida”. Paulilo ofereceu dinheiro e mesmo assim ela não quis, com medo de doer.  E nem percebia ainda, mas tinha uma noção, o que as dores desse lutrimento pudessem causar.

Dizingonzal traz em si conteúdos de fanfarronice, de gente muito querida, e Louro de Maninho Caganete era queridíssimo na cidade. Inventava brincadeiras com tudo que fazia ou deixava de fazer, criava personagens a partir dos conterrâneos mais exóticos, reciclava apelidos, transformando-os em mais engraçados ainda. Despedia-se dizendo “amanhã eu vou lá hoje” e, quando alguém queria coisa demais, dizia que queria era “osga” (nome de uma lagartixa, mas para nós tem o valor de ‘nada’, ‘coisa nenhuma’ ‘porra nenhuma’), sem contar que na hora do cumprimento a quem perguntava como ele estava, sempre respondia: “Tô contrariado, mas tô satisfeito”. “Dá o pé, Louro!” das brincadeiras era a menos esculhambada que se ouvia.

Aos do lugar, como Pedro Guerra, ele dizia que queria paz; a Duardo Gamela, ele dava uma bacia; a Pedro Guarda, anunciava que soltava; a João do Fino, dizia que era grosso; botava pra quebrar com Chico Parrachá; a dona Fulorzinha,  dava um botão; ele era doce e o Major Fel; a João Batatinha, dizia que gostava de cenoura; botava João Burra Veia  no meio duma jega nova; era do capeta e Quinca de Santa; a João Binga, Louro dava um corniboque ou um isqueiro.

Inventava verbos: Dona Tutinha, mulher de João do Fino, por exemplo, era a segunda pessoa do singular do pretérito imperfeito do verbo ter. No carnaval, Louro inventava música e ele mesmo e sua turma faziam a festa, festa simples, baratinha, feita com dinheiro de cachaça. Para os dali, sem Louro não havia festa ou a festança ficava sem graça. E com ele não tinha cerimônia, entrava na casa de qualquer um e se servia de café, biscoito, almoço ou janta.

O prefeito, que ia mal das pernas, levou até Louro a proposta de uma candidatura a vereador, que ele garantiria e coisa e tal, para aproveitar a popularidade do moço. Só a política conseguia tirar a alegria de Louro. Lembrou-se de gente que por lá brigou na política e a mágoa fincou pé. Tanto fincou que soverteu da cidade para nunca mais voltar. Essas coisas não combinavam com Louro, que adorava a cidade e sua gente do jeito que elas eram, no seu cotidiano de construir uma vida com a força do trabalho, da sabença e das tradições. Por isso ele construiu lá um museu com essas coisas, chamado de Casa de Louro, e lá não faltam o aconchego e muito menos a liutria do dizingonzal.

(A crônica foi construída com o verbo no passado, como uma homenagem aos personagens correntinenses aqui citados. No entanto, há muita gente e coisa vivas e no presente).

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