Publicado em 30/03/2025 às 12h03.

Correntina faz 87 anos de emancipação.

A pequena povoação originada em 1791 é hoje o 28º município mais rico da Bahia

Teoney Araújo Guerra

Neste dia 30 de março, Correntina celebra mais um aniversário da sua emancipação política e administrativa; 87 anos da criação de município, após 234 anos de trabalho, lutas e história, desde que um grupo de retirantes, vindos não se sabe ao certo de onde e liderados pelo padre Anacleto Pereira dos Santos chegou a um rio, ao qual denominaram de Rio Rico, onde encontraram ouro e passaram a explorá-lo. Originando assim um ajuntamento de barracos e pequenos casebres.

Foto: Major Félix Araújo, o último intendente e primeiro prefeito de Correntina.

Transcorria o ano “das graças do Senhor Jesus Cristo” de 1791. Porém, a corrutela foi depois renomeada de Rio das Éguas, pelo achamento – provavelmente em 1792 -, nas suas margens, de um “lote de éguas e mulas” que era considerado perdido, de propriedade do fazendeiro Joaquim Amorim Castro da Gama.

Tempo de fé, valor espiritual que havia enraizado no “coração” das pessoas, juntamente com as crenças, e as faziam agraciadas por “milagres” que eram retribuídos com os atos prometidos. O achamento do lote de animais motivou dona Caetana, esposa do fazendeiro, a cumprir seu compromisso de fé, mandando construir na minúscula povoação, uma capela em homenagem a Nossa Senhora da Glória, santa da sua devoção.

Foto: Cine Teatro de Correntina.

A povoação originada na então província de Pernambuco, depois incorporada à província da Bahia por decreto de Dom Pedro I, passou a receber contingentes de migrantes vindos de várias regiões da Bahia e de estados nordestinos, que fugiam das secas. Mulatos, pardos, caboclos e cafuzos, além de uns poucos descendentes do colonizador europeu constituíram a localidade, que cresceu e se expandiu, incialmente pela estreita faixa de terra plana, a partir da rua da praia – hoje, a praça do mercado -, onde foi criada uma praça e uma rua, então denominada de rua da mei’água – atual Góes Calmon. O casario também se espalhou pelo lado leste, até o Riacho Vermelho, e pelo oeste, sempre acompanhando a margem do rio, até o sopé da elevação mais alta e íngreme, onde, no topo, foi construído o cemitério.

Na praça, tempos depois, padres missionários construíram uma igreja, a Igreja Matriz, que substituiria a capela.

Findo o ciclo aurífero, as atividades agropecuárias, desenvolvidas em inúmeras pequenas propriedades rurais, passaram a garantir o sustento das famílias dos próprios lavradores e os alimentos necessários na povoação; proporcionando também o povoamento de toda a área adjacente: Macacos – hoje Silvânia -, Caruaru, São Manoel, entre outras pequenas localidades.

O arraial originado a muitas léguas da sede do município, a cidade de Carinhanha, evoluiu também na sua organização social. Com a instituição do Coronelismo, o Coronel Severiano Magalhães assumiu o poder local e, sob sua influência, o governo da Província da Bahia concedeu ao arraial, no ano de 1866, foros de Vila. A Intendência foi instalada, a Prefeitura e a Cadeia construídas num quarteirão vizinho à Igreja. No mesmo ano, a Igreja Católica criou e instalou a Paróquia local, denominando-a de Paróquia Nossa Senhora da Glória, que foi aclamada sua padroeira.

Seguiu-se um período de uma verdadeira guerra entre os jagunços do Coronel Severiano Magalhães e os do Coronel Faustino Pau Terra, detentor do poder no Porto de Santa Maria da Vitória. Cada um querendo submeter a vila vizinha aos seus domínios. Situação que só foi resolvida em 1891, quando a vila de Nossa Senhora da Glória foi reconhecida definitivamente como independente, passando a ser denominada de Vila de Correntina. Uma povoação já com casas de adobe e telhas, e as rústicas  bodegas transformadas em “vendas” instaladas em cômodos, na parte da frente das residências dos comerciantes.

A índole festiva e a aptidão artística presentes na vida do povo local se manifestavam na denominada “Brincadeira dos Escravos” – representação teatral, da qual não se tem informações mais detalhadas, mas, que tinha como base, as tradições folclóricas dos negros -, e no “Arigofe” – folia parecida com a dos atuais Reisados -, e nos “Ternos”.

Foto: Maquete do Cine Teatro Correntina – artesão Dazo.

As atividades agropecuárias se desenvolviam, garantindo o sustento da população local e o excedente sendo destinado à comercialização para as povoações, vilas e cidades próximas. Comércio que se estendia ainda à cidade de Posse, no vizinho estado de Goiás, tendo como forma de transporte de que pessoas e cargas o lombo dos animais. As pessoas, sentadas nos arreios, e as cargas, acondicionadas nas bruacas que eram penduradas nas cangalhas dos burros ou mulas que formavam as tropas*. Nos deslocamentos entre as localidades próximas, eram mais utilizados os carros de bois.

No século XX, ocorreram importantes transformações políticas, econômicas, sociais e artísticas.

No ano de 1905 morre o Coronel Severiano; em 1909 é criada a Sociedade Philarmônica Erato Correntinense, que passou a ser mais conhecida como A Filarmônica ou A Banda; em 1919, a Secretaria de Interior, Justiça e Instrução Pública cria a Comarca local, e Theóphilo Moreira Guerra, o bacharel que chegara à Vila como “Preparador do Termo de Correntina”, é designado Juiz; em 1922 é criada a Sociedade Dramática Correntinense, entidade que reuniu os atores e produtores de peças teatrais que há tempo já escreviam, adaptavam, montavam e apresentavam peças teatrais; em 1924 é construído o Cine Teatro Correntina.

Foto: Teophilo Moreira Guerra, o Dr. Guerra, quem instalou a Comarca e foi o primeiro Juiz.

Com o falecimento do Coronel Severiano, os seus dois filhos: Coronel Juvenal e Capitão Arthur Magalhães se desentendem, cada um formando um grupo político, e passaram a disputar o poder local. A vila passa a viver dias e noites de tensão e medo. Os conflitos entre os irmãos Magalhães duraram até 1923, ano em que morre o Capitão Arthur. Com a sua morte, o Major Félix Araujo assume a liderança do grupo; as desavenças, então, passaram a ser entre o Major e o Coronel Juvenal.

Por esse tempo, uma “indústria artesanal” supria às necessidades da população em diversos setores da vida local, com a fabricação de utensílios domésticos, artigos de uso pessoal e outros bens, como vassouras, esteiras, peneiras e chapéus, utilizando as palhas, fibras e a madeira de diversas espécies da mata nativa, com que se faziam também gamelas, pratos, colheres-de-pau e outros utensílios domésticos; espanadores, utilizando as penas das emas; potes, moringas e outros vasos, utilizando-se o barro, com que se fazia também o adobe, utilizado na construção das casas. Aproveitava-se ainda as cinzas, para o fabrico do sabão de dicuada, e a tabatinga, para se obter as tintas com as quais pintavam as paredes das casas. Com o couro do gado bovino fabricavam-se os chapéus, arreios, alforges, chicotes e calçados, como as sandálias, sapatos e chuteiras.

Nas roças, se produziam a farinha, a tapioca, a goma, os beijus; o fubá de milho, o queijo, o requeijão e a manteiga de garrafa. Nos tachos ferventes no fogo a lenha, o leite e as frutas se tornavam saborosos doces: os engenhos extraíam a garapa da cana, que processada, tinha como subprodutos o açúcar de forma, a rapadura e a cachaça. Os teares fabricavam o tecido de algodão, que era utilizado para se fazer calças e camisas, embornais, panos de sela e sacolas.

Na política, no final da década de 1920, os Magalhães, derrotados, se mudam para o Goiás, e o Major Félix assume o poder, tornando-se o Intendente local. Cargo que ocupou até 11 de novembro de 1930, quando foi extinto e, em substituição, foi criado o de Prefeito. Assim, o Major Félix foi o último Intendente e o primeiro Prefeito de Correntina.

Foto: Major Félix Araújo, o último intendente e primeiro prefeito de Correntina.

30 de março de 1938 a vila se torna cidade, sede do município emancipado de Carinhanha.

A década de 1950 torna-se o período mais profícuo da história de Correntina até então, com a implantação do Sistema Hidrelétrico Formoso-Corrente, mais conhecido como A Barragem, cuja obra movimentou de forma então nunca vista a economia local. Em razão dela, a cidade passa a ter a energia elétrica, com a iluminação pública das ruas. Por ser a construção do sistema hidrelétrico uma obra com alto risco de acidentes graves, é construído na cidade o Hospital do SESP – hoje, posto de Saúde -, que além de atender a possíveis acidentados na obra, contribuiu de forma exponencial para o atendimento à saúde no município. E objetivando disponibilizar água encanada e tratada aos funcionários da construtora que executavam os serviços do sistema hidrelétrico e ao hospital, foi implantado o serviço de água encanada em uma pequena parte da cidade. Também nessa década, o Governo do Estado instalou a primeira escola estadual na cidade, a Duque de Caxias, e foi construído e passou a funcionar o Educandário São José, o estabelecimento de ensino que ficou mais conhecido como o Colégio do Padre, que deu um novo impulso à educação local. Outra obra importantíssima foi a abertura da “estrada do Goiás” – hoje, parte da BR 349 – , que melhorou o comércio do município com o estado goiano – que antes era feito tendo como meio de transporte as tropas –, que passou a ser feito por caminhões.

Foto: Marco da estrada de Correntina/BA a Posse/GO.

O mais importante ciclo de desenvolvimento para a economia local, porém, estava por vir, com a ocupação do “gerais”, a imensa área do bioma cerrado, então quase inóspito. Por volta do início dos anos 1970, pessoas e empresas passaram a cercar e dar uma aparência de legalidade à posse de grandes áreas no “gerais”; terras pertencentes à União, que, entretanto, só passaram a ser ocupadas com atividades econômicas a partir da década seguinte. Quando médios e grandes empresários do sul/sudeste e empresas do agronegócio passaram a efetuar grandes plantios, especialmente de soja.

Nessa década, mais precisamente em 9 de maio de 1985, o município de Correntina perde parte o seu território, para a criação do município de Jaborandi.

O ciclo de desenvolvimento continua, e em menos de duas décadas, tornou Correntina, assim como todo o oeste baiano, a nova fronteira agrícola da Bahia. Com os plantios de grãos, vieram também as grandes empresas de produtos agrícolas, máquinas e equipamentos, e, num segundo momento, negócios de outros setores da atividade econômica. Ciclo que coloca a nossa cidade hoje, como o 19º maior Produto Interno Bruto entre os 417 municípios baianos, com um PIB de R$ 3,3 bilhões, e uma receita própria que, no ano passado, atingiu um total de R$ 64,9 milhões. Esses e outros dados, colocam o nosso município, hoje, em 28º lugar entre os mais ricos da Bahia.

Nota do autor: Texto produzido com dados e informações do livro História de Correntina, do jornalista, escritor e historiador Hélverton Baiano, mais conhecido como Valnir de Vercim.

 

2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns Correntina, que se liberte cada dia mais de políticos corruptos, resgate empatia para o seu povo, transbordando ações solidárias e resgatando a dignidade humana dos hipossuficientes e vulneráveis.

  2. Que matéria maravilhosa. Parabéns ao senhor Teoney A. Guerra por este conjunto de informações precisa. Uma resumo do ano 1791 até os dias atuais.
    Correntina merece o melhor que se pode ter na saúde, educação, segurança e no desenvolvimento econômico.
    Todos os líderes que passaram pela prefeitura deixaram um pouco do seu melhor, uns deram muito outros nem tantos, mas tudo isso soma para que Correntina cresça a cada ano.
    Parabéns ao escritor e historiador Valnir de Vercim. Por prestar informações através do seu livro, história de Correntina, diga-se de passagem que ele, filho da tia Zena, ao qual time o privilégio de ser o seu aluno, colégio de padre, foi o primeiro Correntinense a ocupar um cadeira na AGL, ( academia goiana de letras), fundada 29 de abril de 1939. Eita Correntina seus filhos dando orgulho a nossa cidade carícia.

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